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Photo by Rebecca Matthews on Unsplash

As tortas

Por um longo período depois da morte da Marina eu fiquei apática, fazia o meu trabalho na base do automático, não tinha vontade de cozinhar, de cuidar da minha aparência, coisas que eu considerava uma forma de carinho comigo e com o outro e cheguei a pensar que seria assim para sempre.

Eu acreditava que nunca mais faria as coisas simples que costumava fazer, algumas atividades com ela e para ela. Ir a certos lugares que costumávamos ir,  cozinhar comidas que ela gostava, ouvir músicas que ela ouvia, ver fotos, etc. 

As únicas coisas que me faziam reagir era ir visitar meus pais e ir as reuniões dos grupos de apoio.

Um dia no grupo foi perguntado o que fazíamos antes e que nunca mais fizemos por causa do sofrimento que a atividade causava e eu respondi de pronto, as idas a cafeteria e as tortas. 

Marina era apaixonada por café, mas não deixei de tomar café por conta disso, deixei de ir a cafeteria, nesta nossas idas, conversávamos sobre um monte de coisas e depois íamos à uma loja que ela dizia ser uma mini 25 de março para ver as bugigangas aleatórias que estavam a venda, ríamos de algumas coisas, ela as vezes tirava fotos usandos adereços do departamento da loja reservado às festas a fantasia e temáticas e a nossa última ida a essa loja foi justamente dias antes de sua morte.

Como iríamos viajar no carnaval, compramos adereços para brincar em um bloquinho, ela escolheu uma orelhinha de coelho rosa, achei inusitado, pois ela odiava rosa, eu peguei vários colares havaianos e uns óculos de formatos engraçados. 

A última foto da Marina com vida, foi justamente usando esse arco de orelhinhas na cabeça. 

Não preciso dizer o quanto essas lembranças boas e tristes ao mesmo tempo me deixam emocionada. Nunca mais sentei para tomar um café na cafeteria e na loja de bugigangas, precisei entrar algumas vezes e confesso que o nó na garganta foi imenso. 

Mas em contrapartida quando eu e o Joseval voltamos ao Shopping onde ficam a cafeteria e a loja, depois da morte dela, foi justamente para participar de um simpósio sobre cafés em outra cafeteria e o tempo todo ficamos imaginando o que ela acharia daquilo tudo, “A Marina iria amar isso aqui”. 

Daí a confusão de sentimentos, não parei de tomar café por saber que a Marina gostava demais só não vou a cafeteria, fui a um simpósio sobre cafés e levei uns bons meses para resgatar um ponto importante de nossas vidas por acreditar que não conseguiria mais fazer o que fazia. 

Marina amava torta de frango e nos últimos anos, eu fazia 2 tortas, uma de frango e uma de palmito, a favorita do Edgard, e depois da morte da Marina eu sofria só de pensar em fazer uma torta em casa. 

Todo sábado vinha a lembrança das tortas, de minha rotina neste dia da semana, pois era o dia que mais ficávamos juntas, o quanto era difícil tudo, desde não sentir o cheiro de café pela manhã cedinho e de tudo mais. 

E de eu me apegar ao fato de pensar em fazer tortas já sofria, depois de um tempo, na terapia percebi que estava me punido e punindo aos outros, por uma culpa que eu acreditava ter, a culpa aparecia de forma sutil e então eu resolvi fazer um teste, usando uma massa pronta e fiz uma torta de maçã. 

Daí entendi que a pergunta feita no grupo teve o intuito de mostrar que talvez voltar a fazer as atividades que antes eram prazerosas, poderiam ser feitas como forma de homenagem e que as vezes deixávamos de fazer não para evitar o sofrimento e também como punição.

Dei o primeiro passo, depois de tanto pensar no quanto estava sendo injusta comigo e com todos de casa por me negar a fazer a torta de qualquer tipo, decidi fazer a de palmito, não em um sábado, mas em uma terça-feira, dia que eu, Joseval e Edgard jogamos algum jogo de tabuleiro e depois jantamos. 

Fiz a torta como sempre fazia e não foi aquilo tudo que imaginei que seria e quando o Edgard viu a torta abriu um sorriso que me emocionou muito. 

Depois deste dia, as tortas de palmito, maçã, morango, limão voltaram a nossa mesa, mas a de frango, ainda não voltou e também não faço ideia de quando voltará, mas que aos poucos vou resgatando o que me faz bem. 

E essa história das tortas me mostrou que sofria muito mais por achar que ia sofrer do o fazer efetivamente e que a culpa aparece de formas inusitadas se escondendo sutilmente dentro da mim, aparecendo desde um peso na consciência em cozinhar um prato favorito e até mesmo achar que não mereço viver uma vida mais leve e que se isso não for trabalhado, a dor e o sofrimento fará morada em minha vida.

A dor sempre irá existir mas não da forma inicial, acredito que ela vai abrandando com o tempo, eu vou usando os recursos que aprendi para lidar com ela e ela vai se acomodando e e que sofrer demais não é prova de amor.

E entre as tortas da vida, vou vivendo, me preservando de coisas muito dolorosas, entendendo que isso fará parte dos meus dias mas que não posso deixar que essas coisas simples do dia a dia me impeçam de viver e que não estarei esquecendo da Marina e sim honrando sua memória, o tempo que ela esteve entre nós e alegrando quem está ao meu lado.

10 Comments

  1. Maria Inês Paes Lourenção disse:

    Terezinha, muito bom texto! Sinto-me representada por você. Você dá voz aos meus sentimentos. Obrigada!

  2. Vanuce Bento dos Santos disse:

    Amada Terezinha,muitas atividades que faziamos e não fazemos mais,tem suas barreiras e para mim confesso,uma mistura de sentimentos,enfim….
    Eu falava do corte de cabelo da minha Bia,teve uma vez que em que eu disse-lhe(cortou de novo bia??ela:mãe tem dias que cortei,você nem olha pra mim,olha pra mim mãe !!é só cabelo,cabelo cresce….essas e tantos outras observaçõesd de bia fizeram -me pensar.cortei bem curto e assumir os brancos,essa minha atitude e outras é como posso falar pra Bia ,que ela sempre esteve certa e que eu não me importo com a aparencia,enfim…..tanto pra falar
    Dois anos e sete meses sem a presença carnal de bia,neste sabado tive vontade e força,abrir seu notbuk que estava quardado,me emocionei muito e maravilhos ver os videos com os amigos o amor e carinho com Clarinha,agradeço muito a Deus por te-la em minha vida,gratidão Bia ,eterna filha minha,em alguns momentos é assim que eu á chamava.

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Bia e Marina seriam amigas pois tinham a mesma visão de vida. Aparência esconde a essência, meus cabelos brancos assumidos foi um pedido dela há alguns anos.
      Sexta passada recebi um vídeo de uma amigo dela com ela dançando Macarena, o vídeo é curto mas um misto de sentimentos que viraram lágrimas, de saudades e ao mesmo tempo de gratidão por ver que o tempo que ela esteve entre nós ela só foi amor.
      Abraços Vanuce, saudades de ouvir sua voz.

      • Vanuce Bento dos Santos disse:

        Saudades também,muita pra todos,espero conseguir ,fiquei muito feliz em ver que você e Juvenal vão comandar
        Muita luz
        Estamos juntos no Amor pelo Amor

  3. Marta Isabel Borges Fontes disse:

    Terezinha,
    Me identifico com você, a cada texto.
    Você consegue expressar o que eu ainda não consigo. Talvez por ser recente ( 5 meses e 9 dias) que a minha Ana nos deixou.
    Sobrevivo com altos e baixos, me agarrando as boas lembranças (que são tantas), tentando apagar a cena de quando a encontramos.
    Pedi tanto a Deus que ela ficasse bem, que acredito que agora ela esteja! Não estava fácil para ela, uma menina, de 32 anos, viver!
    Sempre muito alegre, brincalhona, linda, muitíssimo inteligente, ninguém acreditava que tivesse algum problema, que carregasse tanta dor. Nem mesmo eu, mãe, apesar de temer, não imaginava que ela chegasse a tirar sua própria vida.
    Dói tanto que parece que o coração não vai suportar!
    Graças a Deus, tive a oportunidade de ter esse contato com vocês e já agradeço o bem que me tem feito!
    Saber que não estamos sozinhos, parece amenizar o sofrimento.
    Obrigada!

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Marta, sinto muito por sua perda.
      Realmente não acreditamos que isso possa acontecer e parece que somos as únicas a passar por isso.
      E poder falar sobre o que aconteceu e o que sinto, ao menos para mim ajuda, por isso escrevo, pois as vezes acho que as palavras vão me sufocar.
      Um grande e forte abraço.

  4. Jane disse:

    Olá Terezinha , perdi a minha filha a 26 dias , tem sido um processo que existem dias que acho que não vou suportar .mas conheci uma moça chamada Luciana , que passou seu link

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Oi Jane, sinto muito por sua perda. Mas neste momento, tudo que eu te fale pode parecer mais do mesmo e realmente é muito difícil, eu também me senti assim, a dor a da perda chega a um ponto de ser física, o amor que fica grita dentro da gente de uma forma que parece que não vamos aguentar.
      Sinta-se abraçada.

  5. Marcia Maria Sacchi disse:

    Sempre que recebo alguma amiga da Isa aqui em casa, faço brigadeiros e comemos em homenagem à ela…é muito significativo pra mim…é como se ela estivesse ali, rindo junto com a gente aquela risada boba, quase infantil que ela tinha

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