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Algumas constatações sobre o Luto por Suicídio
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A razão e a emoção
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Nada sera como antes | Posvenção de Suicídio | Nomoblidis

Nada será como antes

Fazia  dias que não escrevia, a última publicação foi em 18/03, não havia sentido necessidade de escrever e achei estranho, cheguei a pensar que havia fechado um ciclo. Quando completou 2 anos da morte da Marina e fiz um apanhado dos meus textos e percebi que havia escrito sobre todos os sentimentos relativos ao luto, acreditei que  eu apenas reviveria tudo, mas de forma mais amena, com menos intensidade, mas me enganei.

Um dos primeiros aprendizados do luto é de que nada será como antes e não aceitar isso é um passo para viver com um sofrimento além da conta, uma carga maior do que eu posso carregar e isso faz com que fique em uma fase dando voltas em círculos, abrindo um buraco no chão que se não tomar cuidado ele poderá me engolir.

E eu achava que havia aprendido a lidar com a dor, mas ela me surpreende e as vezes bate bem forte ao ponto de me derrubar e eu fico com uma espécie de ressaca, quem toma bebida alcoólica ou já bebeu além da conta, sabe o que digo, mas no meu caso sem beber uma gota.

Uma dorzinha de cabeça, um desânimo, sem vontade de fazer nada, só com vontade de ficar em um canto quieta, sem falar, sem ouvir nada, nem ninguém com um certo medo do que será daqui para frente.

Mas aí me vem a lembrança de que não posso me abater, mesmo sendo difícil, vou buscando forças e a força acredito que vem do pedido que a Marina nos fez em nossa última conversa: “Espero que o que fiz, não destrua a nossa família” e é nisso que me apego.

A vida que tinha antes não existe mais então não sou a mesma pessoa, quem convive comigo já percebeu, preciso me reinventar, abrir novas possibilidades, fazer algo que nunca fiz, me reconstruir, mas de uma maneira diferente.

Já não fico remoendo e me lamentando pelas perdas além da Marina, pois ela era o meu maior tesouro, e sua partida me fez perceber que meu mundo não era tão sólido como eu pensava, não tinha tantas amizades como supunha e as perdas secundárias em consequência do meu luto, hoje não significam tanto.

Eu a perdi e não me importo e nem  fico chateada quando aquela pessoa que eu tinha apreço passa a me boicotar por achar que minha  família é estranha, hoje tenho a certeza que amor é algo gratuito e se for forçado, nunca foi amor.

Nesta minha nova vida, conheci pessoas que por passarem pelo mesmo, sabem do que falo e me entendem e se não entendem não fingem que sim e nem ficam cobrando por algo que não posso dar e nem ser, me conheceram colando os cacos e também tentando ajudar outros a se reconstruírem, quando me falta a cola que é uma mistura de compaixão, empatia e esperança, eu peço para quem possui, e quando alguém precisa eu ofereço a minha, pois isso é algo que quanto mais se dá, mais se tem.

E assim vou me reconstruindo, algumas coisas ainda ficaram, esses sim são sólidos, minha família, mesmo faltando pedaços, sentindo uma falta imensa da Marina, eu sigo em frente para realizar o seu último desejo, mesmo tendo consciência de que sem ela, nada jamais será como antes. 

17 Comments

  1. José Luiz nunes disse:

    Oi Terezinha nao me canso de dizer que vc é o Máximo mesmo , por favor nunca deixe de fazer seus textos ele nos fazer muito bem , se não ponho vc na minha lista kkk bjs

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Zé, espero prosseguir escrevendo e não quero entrar para a sua lista, a não ser que você faça uma nova: Amigos na dor, amigos do abraço sincero.
      Um grande e forte abraço.

  2. Renata disse:

    Me recordei novamente onde nós que sobrevivemos estamos num CENTRO DE REABILITAÇÃO precisamos reaprender a viver e seguir a vida! Agora sem um pedaço do nosso coração mas seguir com os pedaços que ainda existem. …

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      É Renata, É como ter que aprender a andar novamente sem a companhia da pessoa que amamos, aprender a comer e a ter prazer novamente com o gosto da comida, aprender a respirar novamente, sabendo que não dividimos o mesmo ar com ela. Enfim, reaprender a viver.

      • Renata disse:

        verdade né.. inclusive um bom tema para seu próximo texto REABILITAÇÃO ou algo assim.. isso se vc não já escreveu né……….

  3. Adriana Baumhakl disse:

    Querida amiga da mesma dor. Me vi 💯 por cento nesse relato que você fez. Eu vivo nesse círculo prestar a ser engolida por um buraco. Totalmente perdida, sem rumo, sem nada! 😢

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Adriana, não é fácil essa jornada de nos reconstruir depois de uma perda como a nossa, mas buscamos forças e sabemos que podemos contar umas com as outras para tentar colar nossos cacos. Um dia estou mal, alguém me acolhe, em outro estou mais ou menos, acolho quem sofre e assim vamos vivendo um dia de cada vez, só não podemos deixar o buraco nos engolir.
      Um grande e forte abraço.

  4. Luiz S. Marchi disse:

    Expressar sentimentos como a dor e a impotencia sobre as perdas das pessoas que amamos não é só um dom, mas se traduz numa necessidade diante de pessoas que possam estar vivendo o mesmo sofrimento. Obrigado por suas palavras, são repletas de verdade e por isso libertam e iluminam.

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Luiz, quando decidi publicar meus textos sabia que existiam muitas pessoas que sofriam igualmente, mas não imaginava a quantidade.
      Sei que só vai entender quem passou por uma perda dessa dimensão, e mostrar que não estamos sozinhos e que compartilhamos das mesmas angústias e aflições, nos traz um certo conforto.
      Um grande e forte abraço.

  5. Jaqueline disse:

    Compreendo que o móvel da criação do blog foi ajudar quem passa pelo luto por suicídio, o que por si só já é extremamente nobre e essencial. Mas acredito que você tenha conseguido ainda mais com os seus textos, Terezinha. Você tem conseguido tocar muitas pessoas, fazendo-as refletir, ter mais empatia e ensinando a não ignorar as fragilidades dos outros e as nossas. Penso que o maior desafio é viver, porque o caminho não é fácil e muitas vezes solitário. Estou aprendendo um pouco a cada dia e te agradeço novamente por partilhar a sua vivência e seu conhecimento. Um grande abraço, de alguém que você não conhece, mas está ajudando a transformar.

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Jaqueline, obrigada por me dar esse retorno, suas palavras me fazem ter certeza que foi o caminho certo que tomei.
      Um grande e forte abraço.

  6. Otavio disse:

    Forte abc.em vcs.💖

  7. Mary disse:

    Gente estou ainda tentando levar a vida e não está fácil, meu namorado tem tentado me ajudar, mas tenho dias e dias, não sinto que nos dias que estou de baixo astral, não pq quero, mas pq a tristeza suga minhas forças, e os efeitos dos ansiolíticos também, então fico muito calada, ele pensando que é com ele,.outros colegas de trabalho sem entender e querendo saber o que tenho, ou ainda aqueles que não ajudam o nosso dia. É mto ruim isso, é como se eu tivesse que incarnar um personagem para deixar todos felizes. Pois no fundo ninguém gosta de ver ninguém triste e poucos tem paciência, eu tenho me esforçado, procuro não cansar as pessoas, só falo se perguntam, procuro pouco os amigos, mas hj mesmo estava mto mal e meu namorado ficou chateado, minha mãe faleceu a duas semanas, não está fácil pra mim, sinto culpa. Perdoem aqui o desabafo, também não quero pesar vcs como não quero pesar meu namorado e amigos.

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Mary, não se sinta culpada, você está de luto e é completamente natural se sentir triste e sem vontade de falar. Realmente quem nos quer bem, não quer nos ver tristes, mas muitos não sabem como agir. O luto é um processo individual e o tempo é relativo neste processo.
      Um grande e forte abraço.

      • Mary disse:

        Obrigada Terezinha por suas palavras, estou presa na vida porque tenho uma filha, mas queria muito o direito de partir. Eu sei que levei minha mãe a morte, vcs talvez não tenham ideia do que é carregar a dor de saber que a culpa de fato é sua. Eu queria poder ter a dignidade de partir como ela partiu, uma forma de me remedir e mostrar o meu arrependimento, eu não vivo eu sobrevivo, visto uma máscara, posto fotos sorridentes para fugir do preconceito e do coitadismo dos outros, fujo do que aconteceu, tento mostrar que estou ótima. Hoje escrevo isso sem ter dormido ainda, eu fujo pq não suporto pensar, mas hoje às lembranças me vieram forte, o blog é o meu socorro, e lendo aos relatos me dá fôlego, gente de onde vira nosso socorro?

  8. Dinane da Silva Nobre disse:

    Bom dia, também sou uma sobrevivente do suicídio, perdi meu pai a 51 dias para o suicídio.
    vivo meu luto ainda com muitas perguntas e muito medo de como vai ser viver sem ele moro em uma cidade de interior
    onde tudo vira um acontecimento e a morte do meu pai não foi diferente por aqui era só o assunto então agora que os
    dias já se passaram e como se tivessem esquecido dai tento andar bem na rua (colocar minha melhor máscara de felicidade)
    para ver se não relembrem e comessem a falar de novo porque ficar respondendo que a gente não são sabe o por que não resolve as
    pessoas ficam ali só perguntando. Fiquei muito feliz quando descobrir grupos de ajuda para quem perde alguém para o suicídio apesar de não existir na minha cidade posso falar com outras pessoas que passaram por essa dor sem fim.
    Só Deus para nos da forças pra seguir porque os dias são horríveis :'( obrigada por poder falar da minha eterna dor

    • Mary disse:

      Passo exatamente pelo mesmo, perdi minha mãe em maio deste ano, está sendo horrível, eu não sei se consiguirei continuar, a culpa me corroi, as pessoas se afastaram, e as pessoas julgam sim, mas não ligo pra isso, ligo que nunca mais terei minha mãe e sei que a culpa foi minha.

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