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Buraco Negro
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a culpa | Posvenção do Suicídio

Um dos sentimentos que mais me atormenta no meu luto, além da saudade que será eterna,  é a culpa, culpa pelo que fiz ou pelo que deixei de fazer. Pelo que faço e pelo que deixo de fazer. 

Creio que por este motivo o luto se torna mais complicado que os demais, do mesmo jeito que acredito que fiz tudo que podia me vem a dúvida se havia algo a mais a ser feito.

Ficar lendo e escutando o tempo todo sobre a culpa que é as vezes é atribuída a família é muito difícil, pois ao procurar ajuda em livros de especialistas que na maioria das vezes escutaram os que se foram, muitos falam dos sinais, da necessidade da comunicação, do pedido de ajuda que é feito e muitas vezes negligenciado. E que a maioria dos que consumaram o ato, diziam que ninguém os entendia.

Se o suicídio é uma forma de comunicação, me culpo por não ter  entendido essa comunicação, se havia como prevenir, me culpo por não ter evitado e principalmente ter tentado ajudar e não ter conseguido.

Eu também me culpo por tê-la deixado sozinha no dia que ela cometeu o ato, eu acreditei que ela estava bem. Hoje eu sei que esse era um sinal, mas eu desconhecia na época mas mesmo assim me culpo por não ter entendido.

A Marina  também se sentia culpada por estar deprimida e achar que não tinha motivos para estar assim e por saber que haviam pessoas em situações piores que a dela e mesmo assim reagiam e por deixar as pessoas em sua volta preocupados com ela. Em uma de nossas várias conversas, expliquei que ninguém tem culpa por estar doente e que ela estava em tratamento e que era apenas uma questão de tempo para ela ficar bem.
Ė irracional sentir culpa por algo que não dependia de minha vontade. Pois se fosse por mim, ela estaria aqui comigo, disso eu não tenho a menor dúvida, faria qualquer coisa para que isso fosse possível, mas infelizmente não foi.

É muita confusão de sentimentos é um luto absurdamente complicado, também sinto culpa por querer viver, por precisar prosseguir mesmo as duras penas. Meses depois da morte da Marina, fui convidada para o casamento de uma prima muito querida e fiquei relutando em ir, pois não me permitia viver um momento de alegria, afinal perdi minha filha.

Mas pensei bem e cheguei a conclusão de que precisava ver e falar com outras pessoas, que meu recolhimento e isolamento, estava me fazendo muito mal.

Fui ao casamento e foi uma noite muito agradável, me fez bem e fiz isso em outras ocasiões, pois se tinha algo que ela amava era estar entre pessoas queridas. Mas tem certos lugares que ainda me sinto culpada em ir e não sei explicar o motivo.

Hoje eu entendo que não estava em minhas mãos a sua vida, eu dei a vida à ela, sou a sua mãe,  mas que a vida era dela e mesmo ela estando com a capacidade de raciocínio comprometida pela doença, que não permitia  que ela visse uma luz no fim do túnel, a decisão que ela tomou foi extrema e foi dela, e que infelizmente mesmo que eu quisesse muito que ela estivesse aqui e mesmo ela tendo se arrependido, não houve como reverter e que a dor de sua partida eu sempre sentirei e levarei para sempre, até o dia que o meu coração também parar.

Se houve culpa e se há culpa deve ser por ter amado e ainda amar demais e se tem um sentimento que não se controla é o amor esse sentimento que dura além da vida.

6 Comentários

  1. Renata disse:

    Boa noite! Estamos todos neste mesmo barco chamado sobreviventes por suicídio! Eu nunca gostaria de estar aqui mas o destino me fez entrar a força após a perda do meu irmão de uma maneira trágica que segundos depois até o mesmo não queria mais , infelizmente era ja tarde . Aqui neste barco eu carregava muito culpa mas ao ouvir outros sobreviventes ela está sendo tornando um pouquinho mas leve e coisas que não tínhamos feito vi que outras pessoas que perderam os seus ente queridos fizeram mas este sofrimento inexplicável que os suicidas sentem nem tratamento e atenção não os ajudaram! Uma vez conversando com uma pessoa sobre morte ouvi dela que a morte precisa só de um motivoquando realmente chega a hora , ou uma doença ou acidente aí perguntei dos suicidas aí ele me disse mesmo se não fosse a hora dele ele tentaria mil vezes mas não iria consumado.minhas Crenças estão meio abaladas mas o que sei é que realmente o que acontece depois da morte é um mistério e só teremos certeza depois de partir e ter todas as respostas! Estou cada dia melhorando com altos e baixos mas na certeza que tudo há uma razão de ser e mesmo não entendendo preciso Viver e seguir !

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Renata, essa sensação de culpa é algo que vem, mesmo sabendo que não tem lógica, pois sei que ajudei da forma que pude e sei também que não estava em minhas mãos sua vida.
      E da mesma forma que fica a eterna dúvida que era hora mesmo, pois se algumas pessoas conseguem se salvar de acidentes de tentativas piores e ela simplesmente não conseguiu, fica a pergunta se há mesmo a predestinação ou se somos frutos de nossas escolhas?
      Eu não sei responder, a morte sempre será um Mistério e a única coisa que sei de verdade é que ter que prosseguir com a vida depois de se perder alguém desta forma é muito triste e difícil e encontrar uma nova forma de viver vida é um desafio diário.

      • Renata disse:

        Nossa Verdade Terezinha , vc tem razão, temos que relembrar quando a culpa viver que não estava em nossas mãos a outra vida , e a única coisa que sabemos de verdade mesmo, é que temos que seguir com a vida, buscar um meio, uma formula ou algo, parar viver sem esta pessoa amada e seguir , da melhor forma que conseguimos e carregando ela em nossos corações para sempre !

    • Luciene de Jesus gomes disse:

      Boa noite a culpa é a mais terrível perdi meu irmão a 8 meses estava tão feliz pq tirou a habilitação e estava tentando tira a documentação para ir embora prós estados unidos no dia 1 de dezembro de 2017 falei o dia todo com ele estava tão feliz combinamos até de ficarmos juntos e quando foi no dia 2 de dezembro minha mãe encontrou ele pendurado na varanda foi um buraco sem fundo me culpo pois falava todos os dias com ele até as 3 da manhã e nesse dia não conversei e tão doloroso para mim e pior coisa entrei até em depressão e muito triste como pode perdemos assim pessoas q estão tão felizes e são umas pessoas tão cariosas

  2. ALVIMARA DA SILVA MUNIZ disse:

    Meu filho de quase 17 anos atentou contra a própria vida, quando o vi não aceitei. Fiz massagem cardíaca e respiração boca a boca. O pulso voltou e ele ficou 7 dias na UTI. Faleceu em 04/08/2018. Culpa, dor e desespero. Começo a busca por ajuda.

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Alvimara, sinto muito por sua perda.
      E entendo a sua dor, pois a sinto também.
      Peço desculpas, mas precisei editar a sua mensagem, mas o primeiro passo você já deu que é procurar ajuda para seguir em frente e estamos aqui para ajudar na medida do possível.

      Um forte abraço.

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