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Uma dor que não tem nome
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Aceitação

Aceitar a morte de um ente querido é muito difícil e por suicídio é um processo bem mais longo e doloroso.

Lembro que em uma das primeiras reuniões do grupo de apoio que participei, foi perguntado se a morte da Marina tivesse ocorrido de outra forma, um acidente por exemplo, se eu me sentiria diferente.

Imediatamente respondi que não, pois não era a forma que se deu e sim a dor da ausência, saber que nunca mais a veria é que me maltratava. A morte poderia ser por qualquer motivo, a tristeza e a dor seriam as mesmas.

Mas com o tempo, percebi que sim, o suicídio deixa quem ficou, além das dores e tristezas comuns a qualquer luto,  com um sentimento de abandono, de culpa que talvez a morte por outra causa não teria deixado.

Acredito que isso é devido a aceitação, é duro para uma mãe, um pai, um filho, marido, esposa, irmão ou para qualquer pessoa próxima de quem cometeu suicídio, aceitar que ele “preferiu” não estar mais aqui,  ir para o desconhecido, fez uma escolha, consciente ou não, de não ficar mais.

Escrevo a palavra preferiu mesmo depois de ler tantas coisas a respeito do suicídio, entendendo que não é o certo me referir desta forma, pois em se tratando de suicídio, não existe preferência, opção,  a pessoa que se suicidou não conseguia ver uma alternativa, ela não queria se matar, ela queria se livrar da dor,  mas mesmo assim quem fica, também não consegue pensar de outro jeito e não se sentir rejeitado. 

Por mais que eu saiba que a Marina estava doente e não conseguia ver uma saída para suas aflições, é difícil aceitar que o desespero venceu o meu abraço, o meu calor o meu amor. É cruel ouvir e ler que talvez o suicídio pudesse ter sido evitado, que talvez sua vida dependesse de apenas umas palavras.  

Eu a amava muito e aceitava minha filha de todas as formas e jeitos, aceitava as sua escolhas, só não está sendo fácil  aceitar não tê-la mais aqui. Está difícil, as vezes penso que meu coração está se acalmando, mas de repente acontece algo que muda toda a percepção de conformidade e volta toda aquela sensação de fracasso.

Aceitação hoje para mim é um ato que me obriga a ver tudo de forma diferente. Me faz ver que por mais que me aceite como sou, ainda não me conformo e esse inconformismo está me fazendo ser outra pessoa, não na essência, mas nas ações, e escrever neste espaço é um deles.

Escrever que por mais que eu saiba que não dá para mudar o passado e que o futuro não é certo, meu presente é a busca da aceitação de que a Marina se foi e que eu fui responsável por trazê-la ao mundo mas que sua vida não dependia mais de mim e não estava em minhas mãos.

4 Comments

  1. Andreia Moura disse:

    Eu sinto a mesma dor que você, após 6 anos que meu filho Rodrigo Moura me deixou. Eu o amava/amo tanto e ele sabia disso, mas o amor que ele queria eta de uma mulher. Sinto tanto sua falta.

  2. Edinalva disse:

    Eu perdi minha filha ela suicidou a 3 meses, me sinto tão culpada, eu sempre a amei tanto, sempre dizia isso todas as manhas, ela era minha princesa,minha melhor amiga, minha confidente, até hoje quando toca o telefone sempre penso nela.

  3. Ricardo disse:

    Perdi minha filhinha em 09/02/2021, minha pequenininha de apenas 13 anos.
    Eu só choro, muitas vezes em silêncio e outras colocando todas as lágrimas pra fora.
    Não tenho 1 minuto de alívio, e às vezes penso que nunca mais terei.
    Eu tinha fé e confiava em Deus, mas tô tão revoltado com Deus, vcs não fazem ideia.
    Desculpem por falar isso, mas tenho que desabafar, não julguem, entendam.
    Pra mim isso de “Deus tem seus planos que a gente não entende” é uma brincadeira de mal gosto ou sacanagem dele. Acredito em Deus, só não mais acredito na bondade dele. Se fosse bondoso, piedoso, amoroso, jamais deixaria isso acontecer, daria livramento, era apenas uma menina e imatura.
    Se Deus fosse “pai”, não deixaria uma maldade desta acontecer, eu sou pai, não deixaria uma maldade acontecer aos meus filhos. Eu sou pai, protejo meus filhos sempre que posso, protejo até de suas decisões mal pensadas. Deus sabe tudo e é todo poderoso, não aceito que ele permitiu isso.
    Penso que nem o tempo será capaz de aliviar isso, e isso me dá desespero, angústia e falta motivação para continuar … é trágico, sei que preciso de ajuda para obter um pouco de equilíbrio, tá tudo bagunçado, é desesperador.
    Fico pensando se poderia ter feito algo mais, além de todo amor que eu dava e mostrava, queria mais uma chance, choro por saber que NUNCA mais poderei ter o carinho da minha pequena … é só dor

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Ricardo, sinto muito por sua perda.
      Tudo que eu escrever aqui não irá fazer sua dor passar, mas você está conseguindo colocar para fora esses seus pensamentos, acredito que ajuda um pouco.
      A sensação de abandono nestes casos é ampliada. Quando minha filha se foi, pensei muito nas orações que fiz pedindo que Deus a curasse, fiquei muito tempo me perguntando se havia pedido direito, minhas preces não tinham sido ouvidas, também questionei que Deus é esse que permite tanta dor e sofrimento.
      Não tenho respostas sobre isso e também não acredito que “há planos que não entendemos”.
      A bagunça que fica é geral, odiava quando me falavam do tempo, que só ele curava, aprendi a cuidar da dor e a cuidar de mim, procurei me fortalecer e assim sigo meus dias, toda remendada, dando um passo de cada vez, não é fácil, mas não é impossível.
      O espaço é para desabafar, sem julgamentos.
      Um grande e forte abraço.

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