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Meu luto e o deserto
31/10/2020
Como uma onda - Posvenção do Suicídio - Nomoblidis

Como uma onda

A metáfora da vida como uma onda me remete a que tudo que vem um dia se vai, há ondas pequenas que o ir e vir o barulho acalma, mas há outras enormes e violentas que derrubam e destroem até o mais sólido dos rochedos.

Depois da morte da minha filha, vivo em um constante vai e vem de emoções, uma série de ondas que as vezes chegam calmas, outras horas vem derrubando tudo e reaprender a viver uma nova vida neste ritmo precisou e ainda precisa de uma carga muito grande de esforço e isso é cansativo. 

Cansativo e às vezes tenho a impressão que não vou dar conta e esmoreço e aí lembro que não sou feita de ferro, nem tenho super poderes e preciso descansar, recarregar minhas baterias. 

E como no luto ficamos com a algumas percepções alteradas, a memória parece que dá uns apagões e algumas lembranças chegam a ficar escondidas no inconsciente e de repente por algum movimento, elas voltam, assim como uma onda.

Meses antes da Marina falecer, ela mobilizou, eu, Joseval e minha mãe para confeccionar um tigrinho de feltro um “Haroldo” personagem do “Calvin & Haroldo” do cartunista Bill Watterson, para ela presentear o Eduardo, seu melhor amigo.

Marina e Haroldo

Primeiro ela disse que costuraria, pediu até uma máquina de costura para meu irmão mais velho que fez um esforço danado para trazer de outro estado a máquina que ela tanto queria, mas ela acabou desistindo de aprender a costurar.

Eu e Joseval compramos o feltro nas cores que ela pediu, laranja, preto e branco. Ela procurou na internet o molde e pediu para minha mãe cortar e costurar e acompanhou cada etapa da confecção.

Era final de ano e ela queria entregar de qualquer jeito o Haroldo para o Ed que iria viajar, minha mãe precisou apressar a entrega do tigrinho.

Ela me contou toda feliz a reação do Eduardo ao ganhar o Haroldo, é o personagem favorito dele e eu questionei o motivo pelo qual ela fez tanta questão de presenteá-lo e ela respondeu que era algo que ninguém mais teria é que é uma peça única. 

Marina tinha um jeito especial de demonstrar afeto pelos outros, ela gostava de materializar, falar e estar presente, esse era o jeito dela demonstrar toda sua consideração pelas  pessoas.

Já o meu jeito é o de cuidado, me fazer presente em forma de ações, não sou muito de ficar falando te amo ou gosto muito de você o tempo todo, o meu afeto sempre foi em forma de ações e presença.

E além do tigrinho que ela fez tanto questão de dar ao Eduardo, ela fez alguns desenhos e deixou por escrito que eles eram para ele.

Eu tive inveja do Eduardo, ele me contou que o Haroldo fica na cabeceira de sua cama e fico imaginando que quando bate a saudade dela ele deve abraçar o Haroldo e sentir em forma material o carinho que ela tinha por ele.  

Uns tempos atrás, alguém postou no facebook uma foto de um bichinho de pano feito com roupas da pessoa falecida e eu achei muito legal a ideia, a intenção de materializar o afeto em um formato e deixar quem faleceu, não só nas lembranças.

E para a minha surpresa a querida Psicóloga Estela Ramires Lourenço de São José dos Campos me contou que uma amiga faz esse trabalho e que iria me presentear com um ursinho, eu deveria  enviar duas peças de roupas da Marina para que fosse confeccionado e eu não contive a emoção. 

Por conta da pandemia, demorei muito a postar as peças, havia escolhido uma camisa que ela amava, mas como não entendo nada de costura, achei pequena e resolvi mandar uma outra.

E recebi em meados do mês de setembro um ursinho confeccionado pela Dolce Panno, que conseguiu materializar um bichinho cheio de amor. Eu nem consegui falar direito de tanta emoção, muito menos escrever e só agora estou conseguindo ordenar as ideias, o ursinho tem até a touca que ela tanto gostava de usar.

Terezinha e Joseval com o ursinho feito com as roupas da Marina

Agora posso abraçar algo quando sentir muitas saudades e descobri o significado de peça única que a Marina quis dizer que o Eduardo tinha, assim como todos nós somos, únicos.

Nas ondas da vida só percebi que de certa forma as coisas se conectaram devido a uma mãe enlutada do Rio de Janeiro que após uma reunião do Grupo, me mandou uma mensagem e uma foto contando que materializou as palavras que falamos no final de cada encontro em uma colcha de patchwork e foi muito emocionante ouvir a mensagem dela. 

Todo o significado de resgate, de reconstrução que ela fez e faz ter esperança para seguir adiante usando a arte e a costura.

Assim como estou vendo outros movimentos de outras mães e pais neste processo de ressignificar a vida através da materialização do amor que ficou e que esse é um movimento emocionante e como percebeu a mãe enlutada do Rio, os quadrados da reunião on line que a inspiraram para fazer a colcha, eu vejo que cada um no seu quadrado vai tendo motivos e dando significado ao que ficou e com isso conseguindo seguir adiante, cada um no seu ritmo e no seu tempo. 

E que neste intervalo de nascer e morrer, a vida segue feito ondas, o movimento das ondas vão e vem, uns dias as ondas me derrubando e nos outros me trazendo lindas recordações e novas formas de seguir.  

Não é uma tarefa fácil me refazer depois que uma onda me derruba, mas são as recordações que as vezes ficam escondidas me fazem lembrar o quanto fomos felizes o tempo que ela esteve aqui conosco e são essas lembranças que me fazem ter vontade de seguir honrando o seu amor, buscando uma nova forma de viver e assim como as ondas, levando e trazendo esperança.

2 Comments

  1. Marcia Maria Sacchi disse:

    Altos e baixos né…ontem tive uma forte crise de choro, não conseguia parar…foi bem difícil…uma onda gigantesca….mas agora novamente à calmaria

  2. Mari disse:

    Terezinha acredito que jamais conseguiria algo assim, pra Deus nada é impossível, então não existe o jamais, então sim, sei que sim poderei conseguir, mas hoje não imagino isso. Tenho áudios da minha mãe guardado e não escuto. Acredito que não exista o jeito certo não é mesmo? Talvez vc também tenha demorado até conseguir chegar neste momento, eu realmente não imagino. Só em ver a foto dói meu coração, e falar sobre este assunto me faz mal, mas eu tinha que vir aqui hoje. Que Deus nos abençoe 🙏. Honro tua força e tua vida.

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