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O luto e a vida líquida
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A raiva no meu processo do luto
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O Suicídio e os julgamentos

2 anos e 4 meses que vivo este luto, escrevo sobre o processo e o que entendo dele, minha nova visão de vida, sobre a minha reconstrução como pessoa, um aprendizado difícil, um vai e vem de sensações e sentimentos, as vezes acho que estou me adaptando, mas de vez em quando bagunça tudo.  

Aprendi que o luto possui fases, já escrevi sobre elas,  e que elas não são iguais para todos e não possuem uma exatidão e ordem para ocorrer. Algumas dessas fases senti com muita intensidade outras nem tanto, umas nem passei  é um constante ir e vir.

E esse ir e vir, que comparei com  montanha russa, água turva, buraco negro,  possuem gatilhos que disparam com as coisas mais simples, uma música, um cheiro, uma comida, um lugar, um evento. E eu evito o que sei que irá me machucar, músicas, comidas e lugares, mas nem sempre é possível. 

Esses gatilhos são diferentes da saudade, saudade sinto todo dia, a falta é constante, os gatilhos que me refiro me fazem sofrer além da conta, mas acredito que isso fará parte constante de minha vida e o aprendizado não para. 

Mas o que me faz escrever hoje é sobre algo que todos os Sobreviventes do Suicídio sofrem, os que se foram e os que ficaram, os julgamentos. Os julgamentos feitos quando um suicídio é noticiado e o suicídio de uma moça que compartilhava sua luta contra a depressão em uma conta no Instagram e que estava enfrentando momentos muito difíceis,  além da tristeza que um fato desses sempre me traz me angustiou a forma como a morte da moça foi tratada nas redes sociais e na mídia a ponto dos julgamentos me incomodarem.

A forma como a mídia e as redes sociais exploraram o Suicídio da  moça me fez ter a impressão de que a cada dia mais as pessoas se acham as donas da verdade e incapazes de se ver no outro e acham que são imunes as agruras da vida, costumo chama-los de Juízes dos pecados alheios. Pessoas que vivem com a boca cheia de Deus mas que não o tem em suas ações. 

Alguns meios de comunicação trataram o assunto com muito sensacionalismo, não respeitaram ao menos 3 regrinhas básicas da cartilha da OMS, que é não atribuir causa, pois suicídio é multifatorial, não atribuir culpa e que deveriam divulgar o telefone 188 do CVV, para caso alguém precise de acolhimento emocional o tenha através deste serviço.

Só quem tem um ente querido depressivo sabe o quão difícil é, o quanto é duro olhar a pessoa que se ama e não ver nela um brilho no olhar,  a dificuldade do tratamento, a angústia de depositar nos remédios uma possível cura e não a obter a curto prazo, a preocupação de não saber como agir, o desespero na busca por ajuda e nem sempre ter com quem contar, uma tristeza que consume todos da família.

Só quem perde um ente querido pelo suicídio sabe o tamanho do vazio que fica e como é complicado e sofrido  lidar com a ausência e com uma série de perguntas sem respostas e uma infinidade de ses e por quês e ainda lidar com os julgamentos e a maioria deles vinda de pessoas que não fazem ideia do que estão falando. 

Nossa sociedade julga tudo e vive impondo um modo de vida que nem sempre é alcançável, aliás, praticamente impossível alcançar os padrões de felicidade que é vendido. Seja bonito, inteligente, tenha sucesso, tenha um parceiro (a) seja feliz, tenha fé, acredite em Deus e não demonstre suas dores, afinal você é um vencedor. 

E eu acredito que a  busca incessante por essa forma de viver acaba levando muitos a desgostar da vida e no caso de pessoas que tenham algum tipo de doença como a depressão, bipolaridade, entre outras,  isso complica muito mais, pois haverá sempre uma comparação infundada com outras vidas. 

Morte é um tabu, apesar de ser a única certeza da vida, as pessoas vivem como se nunca fossem morrer e a incessante busca da juventude faz com esses julgamentos de quem resolveu antecipar essa morte seja algo inadmissível e a culpa se é que existe, nunca é da doença.

Quando fala-se em morte sempre há a busca de um culpado, já ouvi comentários sobre alguém que morreu por câncer de que “hoje só morre de câncer quem quer”, sendo imputando em quem morreu a culpa e desacreditando na efemeridade da vida e do corpo, e na morte por suicídio isso praticamente tem um peso triplicado e a família é sempre vista como a que não cuidou, não enxergou os sinais, não previu e não preveniu. 

O fato de não aceitar depressão como doença e sim como falta de vontade, fraqueza ou falta de fé é estarrecedor, ou pior, achar que se trata de chamar a atenção ou causada por forças demoníacas, até por pessoas que trabalham na área da saúde e endossado por muitas denominações religiosas que fomentam esses julgamentos feitos por pessoas que destilam ódio, rancor e preconceito. 

Mas enfim, sinto muito por mais essa vítima, sinto muitos por outros casos e pelas suas famílias que agora terão que conviver com a dor da perda e com o estigma. 

E esse acontecimento me fez ter raiva, raiva da ignorância, da falta de humanidade, empatia e compaixão, mas também me fez enxergar e ter a certeza que o trabalho de formiguinha que faço e o de muitas outras pessoas que levam a conscientização da importância de se falar e de educar sobre o Suicídio e o de acolher quem sofre, pode ser pequeno, mas é cada vez mais necessário e urgente.

E que a cada dia de aprendizado no luto pelo suicídio, só me faz compreender que o sobe e desce de emoções é constante, e que mais que nunca, é preciso aprender a lidar com eles e principalmente com a ignorância alheia e com julgamentos feitos por pessoas totalmente sem um pingo de amor, inclusive o próprio. 

13 Comments

  1. Andreia Menezes porto disse:

    Sabias palavras e o que eu sinto e penso estou neste luto a um ano e sete meses, e exatamente assim os mesu dias vc descreveu tudo que sinto e foi bom ter lido pq eu achava que só eu tinha estes sentimentos cada momento de um tamanho diferente, mas com a mesma dor… difícil…nunca vai passar.

  2. Sam Sotério disse:

    Texto maravilhoso e muito verdadeiro. Sou mãe sobrevivente, perdi meu filho há 03 meses vitima de suicídio e só mesmo quem passa por essa tragédia sabe o estrago que certas palavras e atitudes fazem em nossos corações tão machucados pela perda alguém que amamos tanto.

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Sam, sinto muito por sua perda. No início do meu luto, achava que as pessoas não sabiam o que dizer e diziam qualquer coisa, mas muitas falam por maldade mesmo.
      Mas me manter afastada de pessoas assim foi uma das primeiras lições que aprendi.
      Um grande e forte abraço.

  3. Otávio disse:

    Fique em paz.💕

  4. Dinane da Silva disse:

    Quando vi uma entrevista da mãe e da tia da moça, percebi que as pessoas queriam saber porque a família tinha deixado a moça casar sozinha entre outras coisas que ela havia feito como se alguém tivesse o direito de impedir a vontade dela.
    É impressionante a falta de empatia com outro principalmente quando o assunto é suicídio, quando perdi meu pai as pessoas se afastaram de mim e da minha família como se a gente tivesse uma doença contagiosa além de não estar do nosso lado nesse momento tão difícil ainda saíram julgando e criando (de suas cabeças) os porquês dele ter tirado sua vida.
    Tentando assim nos culpar, é muito triste porque em momento de uma dor dessas o que mais queremos é apoio.
    Pode ter certeza que o que a senhora faz relatando a sua dor nos faz seguir enfrente enfrentado a cada dia um sentimento diferente.
    Muito obrigado por todas as vezes em que me senti sozinha e vendo suas postagem percebi que estava :*

  5. Anna Casser disse:

    Texto maravilhoso. .cada detalhe!!
    Muito atual e verdadeiro…
    CVV Centro de Valorização da Vida, faz um excelente trabalho..ligue 188 ligação gratuita para todo o Brasil..Lá as pessoas estão aptas a te ouvir!!Desabafe conte as suas dores..serás acolhido ,sem julgamentos!!

  6. Luisa Gama disse:

    Boa noite Terezinha!
    Descobri seu site escutando sua fala no programa “Alô Humanos!”
    No centro espírita que frequento dedicamos o último sábado do mês para falar sobre suicídio. Queria comentar sobre a situação dos que ficam e achei sua entrevista!
    Acredito que escrever alivia a alma e você com toda a sua sensibilidade deve estar ajudando muitas outras almas a aliviar suas dores.
    Infelizmente é através desse sofrimento que percebemos como a humanidade está pobre de amor, de compaixão como vemos em vários acontecimentos do nosso dia a dia. Seu site de alguma forma funciona como espelho para refletir o quão pobre estamos de atitudes nobres.
    Vamos aprender a ser mais “humanos” e suas palavras estão contribuindo para isso!
    Vou divulgar a página no meu Facebook como forma de “granzinho” ajudar a espalhar o seu carinho.
    Fique em paz!!

  7. A disse:

    Olá amigos. Faz dois anos e três meses que perdi meu único filho de 17 anos para o suicidio. A dor está impossível de suportar. Estou isolada em uma cabana e meu único pensamento é terminar de vez com essa dor que não consigo mais carregar, não sei o que fazer. Admiro as pessoas que conseguem falar e escrever sobre isso, é a primeira vez que o faço, porém é tudo muito difícil ainda para mim. Sequer consigo visitar o túmulo dele. Ao mesmo sei do tamanho da dor e da devastação emocional para os que ficam, e isso até agora têm me impedido de por um fim a essa dor. Mas não sei mais por quanto tempo posso suportar. Todos os dias me pergunto, meu deus, como as pessoas que passaram por isso conseguiram sobreviver? Aí então encontrei esse blog. Sigo desesperada e sem saber como continuar a viver. Preciso de ajuda, mas sei que ninguém pode ajudar. Foi só um desabafo. Obrigada.

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Sinto muito pela sua perda, e sei exatamente o que você sente pois é assim que sinto também e sei também que nada que eu escreva aqui vai amenizá-la.
      Eu consegui encontrar na escrita um anestésico,.mesmo que momentâneo, para a dor latente e acredito que estou aprendendo a lidar com ela.
      Procurei por pessoas que perderam alguém pelo Suicídio para também saber como elas conseguiam seguir adiante e poder falar sem julgamentos ou cobranças foi libertador e saber que não estou só é que há pessoas que compreendem o que sinto me fez de certa forma emergir do fundo do poço.
      Mas cada um tem seu tempo.
      Sinta se abraçada e se precisar conversar ou ao menos ser ouvida, conte comigo.

      • Andressa disse:

        Querida, agradeço imensamente sua resposta. Realmente tem um significado muito profundo se sentir de alguma forma compreendida e abraçada por alguém que sabe exatamente o que está se passando, é algo raro e valioso, que não se encontra nem mesmo em ajuda profissional, por melhor que seja, pois sabemos que só compreende realmente quem viveu essa dolorosa experiência. Sempre quis conversar com alguém que pudesse compartilhar desse sentimento, cheguei a buscar há algum tempo um desses grupos de apoio, porém não tive coragem de comparecer, pois além da dor existe também vergonha pelo fracasso, culpa por não ter sido capaz de ajudar, e medo dos julgamentos, e de fato o processo de aceitação é um processo lento que precisa acontecer ao seu próprio tempo, que inclusive não segue a lógica do tempo da vida em sociedade. Não consigo mais raciocinar, não consigo trabalhar, não consigo sentir alegria, e no momento não há nada que eu possa fazer sobre isso. Contudo, compreendi hoje a importância de buscar botar um pouco disso para fora e compartilhar esse sentimento especialmente com quem possa compreender em profundidade. Pretendo seguir o exemplo, creio que seja um grande passo no processo curativo. Obrigada, sinta também o meu abraço com o mesmo carinho e compreensão.

    • Anônimo disse:

      Se você tem mais pessoas que vc ama, permaneça por favor por eles, perdi minha mãe em abril deste ano por suicídio, ela estava bem e feliz, depois de uma briga por minha culpa ela tomou está atitude, você não tem ideia da culpa que carrego, a dor é insuportável, eu queria não ter nascido. Eu queimo viva e fujo para tentar soprar as brasas. Sangre até a morte, mas não deixe está dor a eles. Desculpe o desabafo. Fomos lançadas no inferno em vida.

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