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Pandemia e o Luto
04/04/2020
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Mesmo sem querer
11/05/2020

Idosos e o Suicídio

Bem antes da Marina falecer eu tinha um projeto de fazer algum trabalho social voltado para a terceira idade, sempre tive um carinho e respeitos por pessoas mais velhas.

A nossa sociedade é preconceituosa com relação a velhice, tem até nome, velhofobia medo do velho e de ser velho. Difícil aceitar ter pensamentos de jovem em um corpo que não responde mais ao que a mente lhe propõe.

E infelizmente grande parte dos idosos não estão envelhecendo bem, não por não querem, mas por não terem tido uma vida saudável quando mais jovem por inúmeros motivos que não cabe aqui listar.

A longevidade não veio acompanhada de prevenção de doenças, nem das físicas quem dirá as emocionais, há grandes desafios de cuidar de idosos.

Depois da morte da Marina, quando me envolvi neste mundo dos suicídios, fiquei abismada com a quantidade de idosos e o suicídios que tiram suas vidas, um numero maior que a de jovens e que esse fato não é comentado, até nos grupos de apoio a procura de ajuda de familiares destes idosos é bem pequena.

O jovem que se mata deixa uma porção de perguntas sem respostas, o idoso também as deixam, mas de uma forma diferente, o histórico de vida por ser mais extensa às vezes coloca pontos onde ainda caberia uma vírgula.

Mas não se mede dor, a dor da perda por suicídio é grande e devastadora em todas as configurações familiares e isso é fato.

E com essa pandemia de coronavírus só fico pensando nos idosos, de como eles estão tendo que lidar com tudo isso, se eu estou com medo, imagina a minha mãe, o meu pai, minha sogra, meu sogro, meus tios, amigos e todos os idosos que eu amo que estão privados de sair, de exercer suas atividades que os faziam se sentir vivos e úteis, privado até de abraçar e beijar seus netos.

Tendo que ouvir notícias de que o vírus pode ser fatal em pessoas acima de 60 anos, em pessoas com comorbidades, que devem ficar isoladas, para não pegar o vírus, falam como se fossem descartáveis, inúteis, pessoas destilando seu ódio, falando que mais cedo ou mais tarde os velhos irão morrer mesmo, e vejo isso vindo de pessoas, com mais de 60 anos que não se enxergam como idosos, padecem desse preconceito.

O isolamento social, combinada com uma série de outros problemas e medo do que pode estar por vir, deixam qualquer um fragilizado emocionalmente, imagine um idoso.

Em um caos da saúde em uma pandemia, gente brigando por coisas inúteis, esquecendo que vidas estão sendo perdidas, achando que até as mortes não são verdadeiras, famílias tendo que enterrar seus mortos sem os rituais de despedida que irão carregar um luto de difícil elaboração, assim como o luto por suicídio.

E eu que já estava preocupada, quando soube que o grande e conhecido ator brasileiro se suicidou aos 85 anos, deixando um bilhete sobre o desalento com a vida e inconformado com a maldade humana, inclusive a sua morte não foi poupada dessa maldade, pois fotografaram o corpo e o bilhete deixado para a família, tornando o público.

Não demorou para pipocar nas redes sociais a foto do bilhete, compartilhada por inúmeras pessoas e incluindo aí, por profissionais da área de saúde mental, comprovando o quanto estamos mal assistidos e o quão estamos vivendo em uma sociedade doente.

E é impossível não lembrar que a Marina também sentia esse desalento com relação a humanidade, com relação a maldade transvestida de bondade e que muitas pessoas usam o nome de Deus, de Cristo para justificar seus atos cruéis.

Fico muito triste com acontecimentos desta natureza, espero que a família do ator encontre alento, ele a paz e que eu, continue a plantar sementinhas de esperança no meio desta bagunça toda, apesar de tudo.

2 Comments

  1. Sílvia Leila Ferreira disse:

    Tambem concordo meu Guilherme era um menino bom em um mundo mal, sinto muitíssimo pela minha perda e sei que nunca me recuperarei, mas vejo dois polos…um idoso e um adolescente..as mentes muito pensantes e corajosas…um tanto doentias…sem olhar para o horizonte somente para a dor insuportável na mente..

  2. Sueli hemeterio ribeiro disse:

    Tenho certeza que todos os suicidas sentem essa dor,mas como trabalhei com idoso (cuidadora)posso dizer o quando sofrem,o desprezo dos filhos,os filhos acham que eles nao produzem mas e os diminuem..
    Não deixando fazer mas nada,e assim os tornam inuteis dentro de seus próprio lares,e por serem idosos acabam baixando a cabeça pro filhos que dominam susa vidas e escolhas…essa realidade existe e é muito triste…eu vivênciei isso….trabalhando com idoso ,por outro lado tem os que abadonam em asilos e nunca voltam mais, pra ve-los,as pessoas são egoistas perderam o amor ao proximo e respeito,pra mim foi dificil trabalhar e ver tudo o que acontecia e não poder manifasta…ate mesmo porque não iriam me ouvir,mas por outro lado fico feliz em passar por essa situação e ver que cuidei da minha mãe ate o fim e nunca a abandonei…morreu em 2012 com proplemas pulmonares e alzaimer foram 9 anos lado a lado,mas me sinto feliz por ter cumprido meu objetivo,foram momentos de muito sofrimente ver minha amada mamãe me esquecendo dia a dia,nos tornamos muito amigas e ela me chamava de mãe….a luta acabou….ha se as pessoas hj soubessem como e gratificante cuidar de um idoso.

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