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Mesmo sem querer

Nestes dias de quarentena, não estava conseguindo escrever, estava tudo muito confuso, começava algo, parava, perdia o fio da meada e acabava desistindo. 

Não sei dizer se é devido ao isolamento, minha rotina não mudou muito, estou conseguindo trabalhar de casa, a diferença é que estou mais sozinha e acho que isso faz com que e as lembranças da Marina e alguns acontecimentos venham aflorando e começando a fazer uma bagunça.

Fatos aleatórios que aparecem do nada, mesmo sem querer pensar no assunto, eles me fazem acessar algumas memórias que ficaram lá no fundo, guardadas.

Estes dias, ao limpar o corredor junto com Joseval, me lembrei de quando estávamos reformando a casa onde moramos, pretendíamos fazer alí um jardim com uma área para leitura e instalar ganchos para armar uma rede, a Marina amava balançar em rede. 

Só que ela não aprovou nossa ideia, disse que não precisava colocar uma rede se fosse por causa dela, ela gostava de rede, mas da rede da casa dos meus pais.

A ideia do jardim, não foi para frente, deu fungos nas plantas, muitas morreram, as que ficaram tivemos que mudar de lugar e quando tiramos os vasos para pintar o corredor, nunca mais retornamos com eles para o  lugar e corredor ficou vazio, livre. 

Passo dias sem pisar no corredor, entro pela porta da frente e quando olho para porta, parece que consigo ouvir o barulho das chaves quando ela chegava da faculdade a noite. 

A lembrança da rede no corredor me puxou outra história acontecida há mais de 30 anos, quando trabalhei em um estúdio de fotografias e filmagens. 

Um dia apareceu um casal com uma sacola de fotografias pedindo fazer uma filmagem com as fotos da filha deles que havia morrido em um acidente. 

A menina tinha de 12 para 13 anos, a família estava de férias na Bahia e no dia fatídico ela e a irmã mais nova, foram balançar em uma rede, a pilastra onde a rede estava armada, não aguentou o peso delas e vindo abaixo, ferindo a menina mais velha que morreu na hora. 

Lembro do nome dela, Kelly, pois era o mesmo nome da filha do dono do estúdio, lembro que o pai contou que no dia da morte a filha havia lhe dito que não queria mais voltar para casa, que iria morar lá. A mãe completou que a filmagem das fotos, iria trazer um pouco de alento para eles. Escolheram várias músicas e uma delas era a do Ursinho Pimpão, do grupo Balão Mágico. 

Durou dias o trabalho de filmar as fotos em ordem cronológica, colocar efeitos e sonorizar,  eu fiz a capa fita VHS, “Lembrança de nossa filha Kelly” com a data de nascimento e de morte. 

Na época achei um tanto estranho e muito triste. No dia de entregar a fita para os pais, não lembro por qual motivo eu não estava, mas lembro que um dos fotógrafos que trabalhava comigo, disse que os pais pediram para assistir a fita lá. Foi uma choradeira só. 

E neste mesmo dia que lembrei de tudo isso, que o gatilho foi a rede, teve outro e esse foi mais profundo e eu já escrevi sobre isso, a de que evito fazer algumas coisas, principalmente comidas que a Marina gostava para não ficar sofrendo.

Nunca mais fiz torta de frango por este motivo, mas de omelete ela nunca gostou, e eu sempre faço e neste dia, ao bater os ovos, misturar os queijos, me veio a lembrança de um desenho do Laboratório de Dexter, que a Marina adorava assistir. 

No episódio o Dexter teria aula de francês e inventou uma máquina que ele o ajudaria a aprender dormindo, só que deu errado e ele não conseguia falar mais nada além de  “Omelette du Fromage”.

Marina devia ter uns 2 ou 3  anos, ela e o Edgard assistiam juntos o desenho, tanto que falávamos que ela era a Dee Dee, e o Edgard o Dexter. E neste dia ela não parava de falar “Omelette du fromage” e o Edgard resolveu fazer omelete de queijo para os dois, e essa cena veio nas minhas lembranças muito forte, algo que eu nem sei explicar.

Eu fiquei muito mal com essa lembrança, contei para o Joseval e ao perguntar para o Edgard se ele se lembrava da história, ele disse que sim, lembrava do episódio, mas pouco da aventura na cozinha com a Marina. 

Fiquei pensando muito sobre tudo e resolvi escrever sobre isso e quando me sentei em frente ao notebook para iniciar a escrita, não sei o que fiz e acabei encontrando alguns vídeos que havia iniciado lá em 2017 com fotos da Marina e não consegui escrever nada.

Havia me esquecido que um tempo depois da morte da Marina, quis pegar todas as fotos digitais dela e fazer um vídeo e imprimir todas para fazer um álbum e que nunca consegui, pois chorava muito, então  larguei para lá. Mas eu tinha feito alguns pequenos vídeos que ficaram arquivados e eu nem lembrava onde.

Penso que minha mente me prega muitas peças, me  faz juntar as coisas instintivamente, o corredor vazio sem uso, está ali para que eu possa acessá-lo, assim como as lembranças que são acessadas mesmo eu fazendo um certo esforço para não fazê-lo. 

A lembrança da rede e do vídeo e depois encontrar os vídeos que eu fiz, mesmo sem querer, foi algo que estou até agora sem entender, mas isso me faz cada vez mais que acreditar que é normal e mesmo que eu tente evitar coisas que sei que vão me machucar elas acham uma forma de aparecer quando eu menos espero. E que por mais doloroso que seja tudo isso faz parte do processo de luto e me fazem a sentir viva dentro de mim e assim sigo meus dias.

E que continuo seguindo adiante, um dia de cada vez.

3 Comments

  1. Yara disse:

    Em 19/07 completa 1 ano q meu filho Bruno d 33 anos se jogou do 14 andar.tem dias q Acho q vou enlouquecer.é como um filme q passa na minha mente mesmo sem eu querer.revivo todo aquele dia como um raio q me parte em pedaços.dia 31/05 é aniversário dele.um ano sem sentir seu cheiro.ouvir a sua voz.nao vai ter msg.nem bolo. Como sobreviver a isso?

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Yara, sinto muito por sua perda e entendo como se sente, pois também me fiz essas perguntas.
      Não tenho as respostas, mas vou vivendo um dia por vez, se passaram 3 anos e 2 meses, as vezes acho que já passou muito tempo e depois acho que ainda só tem 3 anos.
      Saudade só aumaneta, mas estou aprendendo a viver com essa dor.
      Um grande e forte abraço.

  2. Fernanda disse:

    Cá estou eu chorando pelas madrugadas, lendo seus textos, Terezinha, obrigada por compartilhar o seu processo, esse assunto é tão delicado e caro pra mim, não consigo falar sobre isso com quase ninguém, lamento pela perda de vocês, também tenho esses pensamentos recorrentes que parecem um filme, que algum gatilho dispara e de repente eles vem todos juntos, mas posso dizer que com o tempo estou conseguindo me concentrar e escolher – nem sempre- de como quero lembrar do meu pai, faz um ano e pouquinho que ele se suicidou, as vezes parece mais porque isso mudou totalmente a minha vida e tantas coisas aconteceram depois, e as vezes parece que foi ontem e eu choro desesperada… Aprender a viver com essa dor não é fácil, né? so bre vi ver. Tenho orgulho de mim cada dia que consigo passar em paz, sentindo gratidao pela vida, aceitando o curso das coisas que eu não posso mudar, minha história, e tudo isso em meio a uma pandemia, em meio a tantos outros lutos, quem sabe poder ajudar alguém, seguir em frente. O amor continua intacto. Um abraço pra vcs.

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