fbpx
Um dia de cada vez - Nomoblidis
Um dia de cada vez
08/07/2018
O bolo e a vida | Posvenção de Suicídio | Nomoblidis
O bolo e a vida
04/08/2018
Sobre os Barulhos e os Silêncios

Sobre os barulhos e os silêncios

Preciso falar sobre o barulho que me corrói por dentro e do silêncio externo que ficou depois que a Marina partiu.

O barulho que me atormenta antes de dormir, quando perco o sono de madrugada e quando desperto pela manhã,  barulho que lembra que mais um dia se passou sem a Marina, mais uma noite que acordo sobressaltada achando que vivi um pesadelo e mais uma manhã que terei que seguir sem ela.

O barulho dos “por quês”, estão ficando mais baixos, já não me atormentam tanto quanto antes, o do ” e se”, tem dias que ainda fica martelando, mas acho que estou conseguindo controlar.

O barulho dos livros sobre o assunto que não consigo mais ler, pois são sempre mais do mesmo. As matérias sobre o tema também, são números e estatísticas que já decorei.

Barulho de pessoas que colocam todo tipo de suicídio em um único pacote como se fosse tudo igual, esquecendo que as pessoas são únicas. Barulho de quem culpa os pais, a família, amigos e afins sem fazer a menor ideia de como era a vida da pessoa que se foi e de quem ficou.

Falar do silêncio que ficou em casa, com a falta de sua gargalhada, da sua voz, dos acordes do seu violão, de seus passos firmes no corredor. Dos questionamentos quase diários sobre tudo e todos.

Mas também preciso falar do silêncio que surge quando o assunto suicídio é mencionado, do medo que as pessoas tem em tocar no tema de forma séria sem sensacionalismo e principalmente, preciso falar do silêncio que fica quando falo o nome Marina para pessoas que ela amava, tocar no nome dela ainda causa dor e sofrimento para essas pessoas e as mesmas acham que falar nela me causará dor também.

Mas pelo contrário, eu sofro quando simplesmente fingem que ela nunca existiu, isso me dói mais que ouvir falar dela, escutar as histórias que ela viveu, me faz bem, o silêncio é que machuca, afinal ela se foi, mas as lembranças ficaram e ela foi muito mais do que a forma como ela partiu e isso faz um barulho danado dentro de mim.

Mas tento entender que nem todos pensam como eu, pois eu sou a mãe e perpetuar a história dela para alguns pode parecer doentio. E esse é um  silêncio ensurdecedor, um paradoxo, que me angustia.

E esses barulhos e silêncios são hoje meus companheiros de jornada, estou aprendendo a lidar com eles de forma que eles não me enlouqueçam e agora tornou-se uma meta de vida, uma busca diária de equilíbrio entre o que faz bem e o que faz mal, o aprender e o ensinar, o prosseguir e o desistir, do desapego e do amor, e é justamente este amor  que continuará a pulsar dentro de mim e que só deixará de existir quando enfim o meu coração também silenciar.

11 Comments

  1. Maria Tereza Tragnago Edler disse:

    Oi..vc falou exatamente o que eu sinto. Também quero falar da Thaís. Um grande abraço afetuoso.

  2. Luciana Ribeiro Félix disse:

    Na verdade quando tomamos essa atitude não pensamos em nada queremos simplesmente nos livrar de uma dor que não conseguimos expressar em palavras um cansaço absoluto como se tudo é em todos os lugares as luzes estivessem apagadas e não há como dividir esse vazio existencial! Sobrevivi após um tomar uma porção de medicamentos .Ac

  3. Luciana Ribeiro Félix disse:

    Acordei entubada e meu PAI ao meu lado segurando minhas mãos me pedindo que não fizesse isso novamente! Hoje estou fazendo tratamento os medicamentos as vezes ficam perto de mim ; mas nunca mais serei a pessoa que fui! Frequento grupos de apoio e psicólogos mas; me pergunto! Qual o significado da vida?

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Luciana, obrigada por compartilhar sua história.
      Qual o significado da vida talvez seja a pergunta que mais é feita e que muitos não conseguem obter a resposta e confesso que também não sei responder, sei que estou aqui, quebrada, colando meus cacos e buscando um sentido para a minha, que de repente pode ser esse, de compartilhar o que sinto para que pessoas como você e outras que passam pelo mesmo, encontre um fôlego para seguir adiante, apesar de tudo que nos aconteceu.
      Não desista de você, um forte abraço.

  4. Vanusa Sampaio disse:

    Agora, estou irmã e o levarei aonde eu for. Não deixarei que esse “silêncio ensurdecedor” me angustie ainda mais. Falar dele e do melhor dele é mantê-lo vivo… É o que nos liberta.💛

  5. Renata disse:

    Faço das suas palavras as minhas ….exatamente o que sinto no meu coração quando as pessoas finjem que nada aconteceu e não tocam mais neste assunto referente a perda do meu irmão .. isso me dói tanto …..mas sei tbm que elas não fazem por mal… mas mal sabem que evitar falar é como se ignorasse minha dor. ..

  6. Gilsiani Camargo Bueno Parmezan disse:

    Sofro muito tbem.Meu Nathan se foi para longe de mim.Dor semfim…

  7. Maria Clara Palomares Vidotti disse:

    Eu ainda estou na fase dos ” por quês” e dos” e se”. Fico me questionando o tempo todo. O “por quê” eu até tento entender, a dor interior da minha Débora deveria ser tão intensa que para ela não deveria ter solução, embora talvez fosse banal para nós, mas para ela era insuportável. Agora os “e se” esses a gente não consegue tirar da mente o tempo todo. É “e se” eu tivesse feito assim, “e se” eu não tivesse feito dessa maneira. Vai continuar nos martelando a vida toda, embora saibamos que o passado não vamos conseguir mudar. E agora a nossa dor é que é insuportável.

  8. Sergio Rubinato Filho disse:

    Meu sentimentos Terezinha.
    Perdi meu filho em circunstâncias iguais as suas e os barulhos e o silencio sao um tormento e para mim sempre estarao presentes.

  9. Elaine Casagrande disse:

    Olá, nossa não sei o que dizer….mas estou satisfeita de encontra -los. Eu sou esposa enlutada. Eu disse satisfeita não pela dor e sim pelo fato de que ler esses relatos e tão próximo, diferente dos livros que li e na verdade só apontam estatísticas. Puxa posvenção, não conhecia me pareceu tão afetuoso.A perda na família por suicídio é terrível, é monstruoso eu tb sei que não dá para mensurar a perda de um filho. A ideia de não ter observado os sinais me assombram , me amedronta, tenho filhos!

  10. Adriana Pereira disse:

    O mesmo eu sinto pelo meu filho Luís Felipe, pq um jovem de 16 anos resolveu terminar com seus sonhos, sem dizer nada a ninguém. Os pqs ecoam na minha cabeça diariamente. Pq isso. Eu o amava tanto, a dor é imensa, todos os dias choro sentindo a sua falta. E a pergunta, pq ele não confiou em mim. Pq ele não pediu ajuda. Sinais nenhum consegui perceber. O se é constante. A dor de continuar vivendo. Me sinto indigna de continuar. De sorrir novamente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *