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O desrespeito ao luto alheio
07/05/2021
Meu processo de luto - Posvenção do suicídio

Meu processo de luto

Por mais que eu tivesse conhecimento que a única certeza da vida é a morte e que em algum momento teria que enfrentar um luto, não imaginava o quão difícil seria meu processo de luto.

Aos poucos estou aprendendo a lidar com tudo que o envolve e resolvi escrever uma nova avaliação destes 4 anos e 2 meses.

Sobre o início

No começo, acreditei que fugir e me ocupar seria um bom caminho a seguir e com poucos dias descobri que não era, então, mudei a rota e busquei novas formas de lidar com o que sentia. 

Tive a sensação de que estava enlouquecendo procurei ajuda médica quando  isso começou a atrapalhar o meu dia a dia. 

Luto não é doença, as medicações devem ser para aliviar a dor e não para anestesiar e não precisei de medicação e sim de terapia para entender o que estava acontecendo.

Compreendo perfeitamente quem necessita pois o trauma é muito grande e adormecer e permanecer dormindo por um período saudável não é fácil.

Eu sei quando o luto iniciou e não tenho noção se um dia acabará, ainda estou aprendendo a acomodar a dor dentro de mim e a integrando a minha vida e isso pode durar para sempre. 

Sobre a dor

A dor pela morte é proporcional ao amor, quanto maior o amor, maior é a dor. 

Cuidar da minha dor foi importante para poder ajudar a cuidar da dor do outro. 

A dor pela morte de quem se ama pode deixar qualquer um amargo, trabalhar isso é primordial para não afastar as pessoas que estão próximas e não magoá-las.

Não há uma única forma de lidar com a perda e não há regras para o luto, certo ou errado.

Na  minha família cada um lida do seu jeito e isso poderia ter gerado conflitos, eu os compreendo e eles a mim. 

A dor aproxima quem passa pelo mesmo e distancia os que não passam.

Pessoas costumam comparar suas perdas e achar que algumas são maiores que as outras, não se compara dores.

Entender que o que me faz bem e o que faz mal foi muito importante, passei a evitar o que me maltrata, mas não há como controlar tudo, há momentos que me deparo com coisas que me fazem mal. 

Além da minha filha, enterrei também muitos sonhos e isso é bem difícil de compreender a princípio, mas depois foi ficando claro que não terei muitas coisas que um dia idealizei.

Sobre o Tempo

O tempo de qualquer forma vai passando, o que eu faço com ele é o que faz a diferença, não fiquei esperando que o tempo cuidasse de tudo sozinho, percebi que ele só distancia do dia da morte, o resto eu tive que fazer.

Busquei estudar sobre luto, sobre suicídio, conhecer pessoas que passaram pelo mesmo, ouvir pessoas que trabalham com isso para entender melhor tudo que penso e sinto.

Chegou um período que quanto mais o tempo passava mais dava a impressão de que a dor piorava, pois fui tomando ciência de que foi real, não era pesadelo e que a saudade bate sem dó.

Tem dias bons e outros muito ruins, ainda estou me acostumando com esse vai e vem com o sobe e desce.

Sobre os Sentimentos

O luto não é simplesmente um tempo que se chora e se lembra de quem se foi, é um período de adaptações, de mudanças e há muito mais sentimentos envolvidos do que eu podia imaginar.

O luto não é composto de fases como muitos falam, inclusive cheguei a pensar assim, ele é dinâmico e ficar esperando passar ou sentir tudo conforme descrevem pode causar ansiedade e preocupação por achar que não está sabendo lidar com seus sentimentos.

A tristeza é só a pontinha do Iceberg.

Saudade é uma companheira constante.

O choro é um aliado, percebi que prender o choro me fazia mais mal do que bem.

A raiva e a culpa também fazem parte do luto, preciso estar sempre atenta para que isso não domine, principalmente a raiva.

Medo de que aconteça algo semelhante era constante, não passou, mas diminuiu.

Compreendi que a pessoa que se foi merece sempre ser lembrada, mas tenho cuidado para não abandonar os que estão vivos. 

Muito se fala da gratidão, tenho gratidão por ter sido mãe e ter vivido com minha filha por quase 20 anos, mas não por estar passando por tudo que passo.

Passei a ser mais compreensiva com os meus sentimentos e com os sentimentos dos outros.

Sobre a rede de apoio

Foi neste período que conheci o melhor e o pior das pessoas.

A vida de antes não existe mais, mudou completamente, não dá para ser aquela pessoa de antes e algumas pessoas não entenderam isso.

Apareceram pessoas com fórmulas mágicas na intenção de ajudar.

Algumas pessoas me olhavam compassivamente e me acolheram independente do tempo, outras  achavam que já devia ter superado. 

Ouvi comparações sobre lutos, sobre superações e compreendi que ninguém sente igual.

Escutei palavras desagradáveis de pessoas que eu amo e escutei palavras acolhedoras de quem eu menos esperava.

Houve alguns conhecidos que tentaram me convencer que só em determinadas religiões  eu passaria a não sofrer pela morte da minha filha. 

Fui sincera quando essas pessoas passaram a se tornar inconvenientes, expliquei que no luto estava vulnerável e suscetível a ficar confusa com outros tipos de crenças diferentes da minha, quem entendeu está comigo até hoje nesta caminhada. 

Conheci pessoas que me ofereceram ajuda e eu aceitei e assim compreendi que devo também estender minhas mãos, meus ouvidos para quem passa pelo mesmo, assim formamos uma grande rede de apoio.

Sobre Espiritualidade

Espiritualidade no luto está ligado ao sentido e ao propósito que cada um vai encontrando nesta nova etapa da vida, na busca de um significado.

No início busquei também na religião um acolhimento para encontrar uma conexão com o divino, com o sagrado.

Aprendi que a natureza, a arte também podem fazer essa mesma conexão.

Me apeguei a símbolos que me conectam com a minha filha e não há nada de errado nisso, pelo contrário é uma nova forma de expressar o amor e me fortalece.

Sobre a reconstrução

O luto também é um processo de reconstrução da vida, coisas e pessoas que antes eram importantes, passaram a não ser mais.

Coisas que antes faziam sentido, passaram a não fazer, coisas que eram absurdas passaram a ser normais.

Mesmo buscando me entreter, passei a ver o luto em tudo, em livros, filmes, músicas, o luto está em todos os lugares, nas entrelinhas ou às vezes escancarado e antes eu não enxergava.

Não foi fácil entender que eu poderia encontrar uma nova forma de me alegrar e estou dando um passo de cada vez, é nas coisas simples que isso verdadeiramente acontece.

Alguns convites para eventos deixaram de ser feitos e quando eram feitos as pessoas se espantavam quando aceitava.

Falar pode ser bom para uns, para outros não, assim como ouvir.

Respeito o modo que o outro lida com isso assim como eu exijo respeito com o meu.

Falar de luto incomoda algumas pessoas, muitos acreditam em uma sociedade onde a felicidade é um artigo de luxo e que todos devem mostrar que tem o tempo todo e a todo custo.  

Até as lágrimas incomodam e algumas pessoas acham inadequado chorar.

Nesta nova vida fui dando pequenos passos todos os dias, procuro não me apressar, paro algumas vezes para me recuperar, mas prossigo.

E todos esses passos são celebrados e homenageiam minha filha que não está aqui fisicamente, mas está em mim e em tudo que faço e assim vou aceitando que essa é a vida que eu tenho desde a sua morte. 

E ainda sigo aprendendo, vivendo um dia de cada vez…

28 Comments

  1. Ligia disse:

    Eu amo os seus textos. Tem tanto de mim neles. Obrigada sempre. Vcs fazem parte da minha rede.

  2. Thamara disse:

    Lindo! Simplesmente lindo!!

  3. Elisabete Poli Martins disse:

    Nossa Terezinha, que lindo texto, conseguiu traduzir esse sentimento com tanta propriedade, é exatamente isso, tem começo mas não tem, fim, nao tem cura, nao tem fórmula mágica, cada dia e uma batalha, vivemos um dia de cada vez…

    • Ana Rico disse:

      Perdi meu pai em janeiro, e lendo tua história.. chorei.Porque ainda estou de luto e choro todo dia e falta dele me delacera o coração ❤️ não sei quando virarei a chave…acho que nunca.

      • Regina Lech disse:

        Me vi no seu texto, perdi meu filho há quase 4 meses num acidente indo para o trabalho, tá difícil, tenho que lidar com a minha dor e me dói, não poder tirar essa dor, que as minhas filhas estão passando, pela perda do irmão que elas amam tanto….

      • Elizabeth Cabral disse:

        A saudade é enorme! Perdi meu filho caçula e temporão no dia 31 de agosto de 2020. Há 9 meses! Ele dormiu e não acordou. Infarto fulminante! 23 anos, com muitos sonhos, mas aprouve Deus recolhê-lo.
        Eu encontrei ele morto na cama, chamei-o e ele inerte, cheguei próximo a ele e coloquei minha mão sobre ele e estava gelado! Quanta dor!
        Mas sirvo a um Deus vivo, e Ele tem me sustentado!
        Sei que um dia vou reencontrá-lo, promessa de Deus!

  4. Vera Lúcia Miotto disse:

    Nossa, enquanto eu lia parecia algo escrito por mim, perdi meu filho a seis meses e a única coisa que acrescentaria no teu texto, se fosse eu quem escrevesse, é que eu necessito de remédios sim, pq o meu luto tornou-se doença 😭. Muito triste perder um filho amado! Abraços

  5. Claudia disse:

    Me senti amparada neste texto, principalmente quando fala na saudade, ela realmente não tem dó. Acho que meu luto nunca irá ter fim.

  6. Otavio Guilherme D.Cardoso. disse:

    E uma grande dificuldade a compreensão mais o dia dia vamos tendo novos entendimentos . Abcs a vcs.

    • Hedja disse:

      Vou compartilhar com minha irmã…
      Está vivendo essa dor… Há três meses, num acidente de moto, perdeu seu filho de 29 anos.

      • eliana goncalves fernandes hungria disse:

        perdir minha filha vai fazer quatro anos no dia 11-07-2021 ela tinha 24 anos vinha do trabalho foi asasinada feminicidio eu tinha falado com ela as 12:17 depois encontrei ela morta em um pronto atendimento surtei ate hoje nao aceito nao entendo o que aconteceu porque aconteceu e minha vida parou naquele dia sair do trabalho nao tenho vida social morrir pro mundo a dor e surreal nao passa

  7. Celma Medina Costa Melido disse:

    Perdi minha filha assassinada há 4 anos pelo ex companheiro eu não aceito definitivamente está situação. Tem dias q parece q vou enlouquecer. Sem saber o q fazer. É uma saudade q doi e corrói a alma. Meu senhor e meu Deus eu creio mas aumentai a minha fé. Hj é muito pior do q qdo td ocorreu.

  8. liziane.dalosto@hotmail.com disse:

    Nossa,que texto,me sinto tão perdida com a perda do meu marido!!!

    • Hedja disse:

      Vou compartilhar com minha irmã…
      Está vivendo essa dor… Há três meses, num acidente de moto, perdeu seu filho de 29 anos.

    • Cida disse:

      Sua história é tão parecida com a minha,agora em julho vai fazer 7anos que meu filho partiu,o mês do nascimento é o mesmo que ele partiu,passei e passo por TDS esse processo,se estou triste sou julgada l,se estou sorrindo tbm,poucas pessoas querem nos ouvir…busquei forças em Deus,agora chegando a data do aniversário e da partida,fica difícil…mas são poucas as pessoas que entendem…😭😭😭😭

  9. Dilcéia Assis Cabral disse:

    Terezinha
    Obrigada…
    Me fez um bem enorme o seu texto.
    Perdi minha Mamys dia 19/5 no dia 13/5 ela tinha completado 90 anos….
    Muito triste mas grata a Deus por ser filha de uma mulher tão especial como ela era….
    Mais uma vez obrigada pelo texto que acalentou meu❤️

  10. Iranete de Lima Oliveira Lopes disse:

    Nossa que texto lindo, já perdi um filho Terezinha, faz 20 anos, perdi meu irmão caçula de um acidente de moto, com 11 dias meu pai de 87 anos não resistiu e teve um infarto! Isso aconteceu em dezembro e janeiro de 2019, e agora fazem três meses que perdi meu marido para o covid … então luto pra mim está difícil de acabar… sou Iranete de João Pessoa! Que Deus nos abençoe 🙌

  11. Simone da Silva Miranda disse:

    Faz dois meses que perdir meu irmão para o suicídio…. Estamos perdidos e minha sensação é a mesma descrita no texto, parece que a cada dia a dor só aumenta.

  12. Renata disse:

    E vamos seguindo… Vivendo…. sobrevivendo e vivendo…..

  13. Auricelia disse:

    Perdi meu marido O amor da minha vida hoje faz três meses estou passando com uma psicóloga pois não estou conseguindo superar a dor é muito grande

  14. Orlinda disse:

    Boa noite!
    Gostei muito do seu texto.
    Me identifiquei muito com ele
    Cinco anos após a partida do meu amor,continuo tendo dias bons intercalados de dias muito ruins e eu ficava pensando que as outras pessoas superaram a perda delas e eu não superei,me sentia fraca por isso
    Após ler o seu texto estou me sentindo normal

    • Silvana disse:

      Perdi meu marido faz 1 mes, e parece que cada día a tristeza e a saudade de ver ouvir, abraçar aumenta, estou quase parando tenho 2 filhas pequeñas para me dar força, más nao estou conseguido.

  15. Marilene Matias disse:

    Lindo texto , perdi meu Pai no dia 13/01/2019 no dia anterior 12/01/2019 ele tinha completado 91 anos , ouvir muitos falarem q com tempo tudo passar , pura ilusão,faz 2 anos e 5 meses , p mim nd mudou , a falta física doi, a saudade doi muito mas 😭n sei até qd , mas vou levando até o dia do meu reencontro com meu PAI….

  16. Anita disse:

    Me vejo em todo esse relato de luto ,desde que perdi meu filho.tem quase 2 meses do ocorrido e nunca mais fui a mesma pessoa..

  17. Monika Silva disse:

    Me senti parte de um grupo ,lendo os comentários …as vezes eu me sinto completamente sozinha , meu filho partiu no dia 18/11/2020 com 29 anos , e hoje meu Marido está a 24 dias em uma UTI com covid , além da dor da perca , estou vivendo o medo de perder novamente …

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