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Meu processo de luto - Posvenção do suicídio
Meu processo de luto
25/05/2021
Julgamento - Pequeno Dicionário do Luto - Nomoblidis
JULGAMENTO
28/09/2021
Tempo esse texto fará parte do "Pequeno Dicionário do Luto" um trabalho que estamos elaborando no Grupo de Apoio Nomoblidis.

Tempo

Texto que fará parte do “Pequeno Dicionário do Luto” um trabalho que estamos elaborando no Grupo de Apoio com a descrição de como é a percepção e os significados das palavras que mais ouvimos no luto e de como elas refletem no nosso processo.

A palavra TEMPO segundo o dicionário Michaelis, tem 16 significados.

Que é, pois o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pede, não sei.” Santo Agostinho

A palavra tempo para nós enlutados é assim como na frase de Santo Agostinho, quando tentamos explicar o que ele significa não é fácil, pois parece que vivemos em uma temporalidade paralela e a denotação do tempo recebe uma conotação que é algo paradoxal. 

É na mitologia grega que nós encontramos duas definição de tempo, o tempo físico que pode ser medido com começo e fim que é o tempo cronológico chamado de  Chronos, e o Kairós que é o tempo indeterminado, tempo metafísico, em que algo especial acontece, o tempo marcado como antes e depois,  é como se nós enlutados vivêssemos no Kairós. 

O tempo vai passar de qualquer jeito”

Não tem como parar o tempo, o tempo só não passa para quem morreu, para nós que ficamos os dias seguem sem cor, sem graça e sem uma perspectiva, é como se ficássemos no escuro esperando aparecer uma luz para nos iluminar, mesmo nos dias mais ensolarados as cores ganham tonalidades de cinza e sem nenhum brilho. 

E isso reflete na nossa aparência física, o luto nos deixa envelhecidos e sem vontade de fazer nada que antes gostávamos muito de fazer e colocamos no tempo o desejo que ele passe mais rápido para que chegue logo o fim. 

E quando damos conta que o tempo sozinho não faz nada, vamos percebendo que precisamos de ajuda.

Ajuda não só de nossa rede de apoio, mas de ouvir quem passou pelo mesmo para tentar entender como é possível viver o restante dos dias  que nos restam,  sem adoecer e sem enlouquecer. 

Esta ajuda nos fortalece, nos conforta e nos dá a energia necessária para seguir adiante. 

Passou tanto tempo, mas parece que foi ontem”. 

No luto como foi dito antes,  parece que o tempo passa diferente, parece que ficamos parados naquele dia, nós enlutados ficamos no passado, os dias correm, as demais coisas seguem seu fluxo natural, nós não. 

E da mesma forma que queremos que o tempo passe para saber se a dor irá amenizar, esse mesmo tempo vai nos afastando do dia do acontecido e também vai deixando mais longe o último abraço, a última palavra e isso faz com que o tempo seja um amigo e um inimigo.

Muitos de nós passamos a contar os dias, sabemos exatamente quanto tempo foi percorrido do acontecido até a data presente, as datas que completam meses e anos, são extremamente difíceis,  não há como evitar que a tristeza nestes dias seja maior que o habitual.

Outros de nós, conseguem não contar, deixam os dias corram soltos, apenas vendo as estações mudando a paisagem, tentando amenizar a dor. 

Dizem que o tempo ameniza (Emily Dickison)

Isto é faltar com a verdade

Dor real se fortalece

Como dos músculos com a idade

É um teste no sofrimento

Mas não o delebelaria

Se o tempo fosse remédio

Nenhum mal existiria”

Escutamos de muitas pessoas que com o passar do tempo a dor diminui, que a dor vai dando lugar a uma saudade, então, criamos uma esperança de que o tempo poderá resolver e curar a nossa dor.

E acreditar nisso para muitos é reconfortante, mas quanto mais se distancia do dia fatídico, mais doloroso parece que fica, a dor parece que se acentua. 

Talvez a explicação esteja que nos primeiros dias o choque nos deixa anestesiados e com o passar dos dias o torpor vai dando lugar a realidade. 

Vamos lembrando que infelizmente foi real, não foi pesadelo, que a pessoa amada nunca mais vai voltar e que verdadeiramente, vamos precisar encarar a vida sem a presença de quem morreu. 

E aí que a dor dilacerante dos primeiros dias, dá lugar a uma dor aguda que passa a ser a companheira constante e para essa dor não há remédio e temos que enfrentar a realidade.

Há para todas as coisas um tempo determinado por Deus” (Eclesiastes 3)

A fé e a religiosidade nos ajudam a ter um certo conforto no luto, mas mesmo assim não é uma garantia de que vamos nos sentir mais conformados com a morte, principalmente quando ela ocorre por suicídio.

Muitos de nós creem em reencontros em uma vida pós morte, outros não, e isso não impede que a dor e a tristeza nos visite em nosso luto. 

Eu vi o tempo passar e pouca coisa mudar, então tomei um caminho diferente. Tanta gente equivocada faz mal uso da palavra, falam, falam, o tempo todo, mas não tem nada a dizer” ( O Senhor do tempo – Charles Brown Jr)

O desafio do luto é o de aprender a viver sem a presença da pessoa que morreu e isto não é uma tarefa fácil e a impressão de que não vamos conseguir. 

Não teremos mais aquela presença que tanto nos alegrava e que tanto nos fazia bem, não ouviremos mais a voz e nem sentiremos o  perfume e tudo mais que a pessoa representa em nossas vidas.

Aí vem uma louca vontade de voltar no tempo para viver tudo de novo ou ao menos viver de um jeito diferente, de mudar algo, ou até pensar na possibilidade de mudar o desfecho da história, deixamos que a razão se perca neste desejo e vamos dando a vez a emoção. 

E isto é algo que não conseguimos explicar, sabemos dessa impossibilidade e talvez isso se deva à negação de que a vida de antes não existe mais e fica mais fácil imaginar do que enfrentar a nova vida que se apresenta. 

Vamos percebendo que o que mais temos em nossas vidas é o que passou, o presente é um instante e o futuro não sabemos se existirá e é neste tempo entre passado e futuro que nos faz tanto almejar voltar no tempo. 

As lembranças que compõem a nossa vida tomam uma dimensão que vai ocupando todos os espaços e isto às vezes nos impede de viver verdadeiramente com quem está presente em nossas vidas, isso nos machuca e também machuca quem nos rodeia. 

Outras vezes nos faz perceber o quão necessário passar mais tempo com quem amamos, dar valor às coisas que nos fazem bem, apesar de toda tristeza que carregamos. 

“...Agora está longe ver a linha do horizonte me distrai, dos nossos planos é que tenho mais saudade”. (Vento no Litoral- Legião Urbana)

O tempo também nos traz a confirmação de que as fotografias nunca serão atualizadas, imaginar como os nossos amados estariam hoje em dia, as mudanças da fisionomia, é difícil, doloroso saber que muitos de nossos sonhos se foram com quem morreu. 

No caso de mães e pais, sonho de ver os filhos formados, de vê-los constituir família, de nos dar netos, entre outras coisas triviais.

Em todos os casos, de ter com quem compartilhar e celebrar as conquistas, ter a companhia, ter encontros, de poder fazer confidências, ser acarinhado na velhice, essas coisas que todos desejamos um dia. 

De dar orgulho, de receber puxões de orelhas, dividir as responsabilidades, de aprender algo que só quem se foi poderia ensinar. 

De ter com quem rememorar todos os momentos vividos juntos, de ter referências e exemplos, de buscar conselhos quando as dúvidas aparecem, dos abraços, sorrisos, gargalhadas e lágrimas de alegria e de tristeza. 

Isso influencia em tudo em nossas vidas, coisas que antes eram simples, passam a ser torturantes. 

Quando vão se aproximando as datas comemorativas, surge um medo de um sofrimento descomunal, sabemos que nunca mais teremos a mesa completa e sofremos com antecedência por não saber como reagir a tudo e a todos, principalmente no primeiro ano. 

Mas aí lembramos que não temos o controle de tudo e a vida sempre foi imprevisível, mas mesmo assim, a emoção ganha da razão nestas ocasiões. 

Temos nosso próprio tempo” ( Tempo Perdido – Legião Urbana)

Ficamos preocupados com o tempo que colocam para que um luto seja considerado “saudável”, nestes tempos em que tudo é instantâneo, para muitos, após 3 meses da morte, o luto e tudo que ele representa, deveria ter sido elaborado. 

Mas o  luto não tem prazo,  ele  é singular, cada pessoa passa por ele de uma forma e no seu tempo, um pai passa pelo luto de um jeito e a mãe de outra, assim como os irmãos e irmãs, a viúva, os filhos, os amigos.  

O amor que fica leva um tempo para encontrar uma forma de fluir de um jeito diferente na vida do enlutado, e cada um tem o seu tempo.

E esse tempo subjetivo, as idades pesam neste processo, quanto mais jovens somos, mais  acreditamos que teremos tempo e disposição para os ajustes necessários, mesmo com tanta dor e desolação, já quando vamos ficando mais velhos, vamos perdendo a esperança e acreditamos que não teremos mais tempo nem disposição para reaprender a viver com a ausência de quem se foi. 

O silêncio de alguns e a necessidade do outro em falar sobre o fato e de quem se foi, também parece se agravar com o tempo. 

Mesmo o tempo percorrido sendo igual, vão surgindo as comparações que vão sendo inevitáveis entre essas vivências individuais que ressoam no coletivo, os desajustes começam e muitas vezes ficam por um longo período. 

Muitos acreditam que com o passar do tempo, o esquecimento chegará, mas isso é impossível.  

Nenhuma mãe  esquece um filho, idem ao pai,  filho algum poderá esquecer seus pais, assim como um irmão é inesquecível, um marido, a esposa, serão lembrados com carinho todos os dias, assim como um amigo que se foi, passe o tempo que passar. 

Chove lá fora e aqui faz tanto frio…” ( Me chama – Lobão)

As estações do ano também mexem com o nosso emocional, lembrar do tempo das festas de final de ano que ocorrem nos dias quentes de verão, os encontros de famílias alegres e coloridos e sempre cheios de sol e calor e que agora não são mais possíveis.  

O frio e a chuva que antes eram motivo para ficar quietinhos em casa sem se preocupar com o tempo lá fora, traz lembranças dolorosas e acinzenta mais os dias de inverno. 

Os ipês amarelos do final de inverno anunciando a chegada da primavera, hoje nos faz lembrar o Setembro Amarelo e tudo que vamos ter que escutar sobre prevenção de suicídio e os pseudos especialistas repetindo frases prontas. 

O tempo se vai, mas algo sempre eu guardarei…O teu amor, que um dia eu encontrei…” (O tempo – Oficina G3).

O tempo pode apagar muita coisa de nossa memória, mas nunca um amor verdadeiro. 

No luto a dor é correspondente ao amor. Só dói porque amamos.

...A consequência do destino é o amor, pra sempre vou te amar (...) Que meu amor, não será passageiro, te amarei de Janeiro a Janeiro até o mundo acabar.   ( De Janeiro a Janeiro- Roberta Campos) 

Colaboraram com este texto:

Adriana, mãe da Isabella

Denize, irmã do Humberto

Dulcinea, mãe do Rafael

Fernanda, irmã do Leandro

Flaviane, mãe da Tainá 

Ivo, pai da Ariele

Joseval, pai da Marina

Kátia, irmã do Leonardo 

Ligia, mãe da Julia

Terezinha, mãe da Marina

Fontes:

https://michaelis.uol.com.br/

http://revistapandorabrasil.com/revista_pandora/kronos_kairos_69/paulo.pdf

8 Comments

  1. Ligia Mastrangelo disse:

    eu tenho muito orgulho do nosso processo de luto. dolorido. intenso. amado. verdadeiro. obrigada. obrigada. obrigada…

  2. Sirlei Augusta Silva disse:

    Terezinha, Joseval e demais companheir@s responsáveis por esse trabalho tão bonito e que pode ajudar muito as pessoas que vivem o processo do luto,
    Compartilhar esses momentos em comum dos enlutad@s, desmitificar coisas que tod@s ouvimos e que mais atrapalham do que favorecem, é acolhedor e nos fortalece. Beijos a toda@s

  3. Milka disse:

    Que texto lindo e sensível, impossível não se emocionar, me senti acolhida em cada palavra.Gratidão🙏

  4. Marilia disse:

    Cheguei ate aqui procurando um grupo e apoio a pessoas com pensamentos suicidas. Minha filha de 13 anos esta com
    Depressão e falando em suicidio. Nao estou sabendo lidar.
    Preciso de aiuda. Existe um grupo de WhatsApp onde eu possa conversar com pessoas mais experientes?
    Muitp obrigada desde ja e meus mais profundos sentimentos a todos que tiveram uma perda em sias vidas.

  5. Ana disse:

    Minha amiga se foi 02/09/2021. Me sinto muito mal.

  6. Jessica disse:

    Hoje faz 20 dias que eu perdi meu irmão, ele se foi no dia 09 de setembro .Ter encontrado o nomoblidis é como se eu tivesse um espaço onde o que eu ler ou compartilhar realmente as pessoas vão me entender. Eu sinto tanta falta dele, eu já sentia com ele vivo pois ele estava em Salvador e eu em Minas, fazia mais de um ano que não nos viamos, com ajuda de vaquinha conseguimos fazer o traslado dele para minha cidade, e doeu tanto ao ver ele dentro do caixão, na verdade dói, estou escrevendo aqui com o coração muito apertado e chorando pra tentar aliviar um pouco essa dor. A última vez que escutei a voz do meu irmão foi no dia 6 de setembro um dia depois do dia do irmão e tudo que eu mais gostaria era de sentir o abraço apertado dele, a voz, a gargalhada dele, é tão difícil saber que nunca mais vou sentir ele ou ouvi-lo, dói de verdade até fisicamente, sinto que falta um pedaço de mim.

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