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Tempo esse texto fará parte do "Pequeno Dicionário do Luto" um trabalho que estamos elaborando no Grupo de Apoio Nomoblidis.
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28/08/2021
Julgamento - Pequeno Dicionário do Luto - Nomoblidis

JULGAMENTO

Mais um texto que fará parte do “Pequeno Dicionário do Luto”, Uma reflexão sobre as palavras no luto por Suicídio.

A palavra  JULGAMENTO tem 4 significados no dicionário Michaelis e nós que perdemos alguém amado por suicídio, nos confrontamos com eles em vários momentos no nosso processo de luto.

É uma palavra que não é dita diretamente e sim a ação de julgar que está sempre nos martelando, somos julgados por vários motivos e muitas vezes sem o direito de defesa. 

E é devido aos julgamentos que muitas famílias preferem esconder que foi suicídio e muitos casos não são notificados e evitam desta forma ter que responder perguntas embaraçosas e ter que lidar com o preconceito ligado a forma da morte.

Porém enfrentam um luto calado, fazem da morte um segredo e o que acaba sendo um silêncio torturante.

Pois na cabeça da maioria das pessoas, que não fazem ideia do que é suicídio, eles acontecem por falta de cuidado, de amor, de compreensão,  de fé  e por esses motivos somos julgados por termos permitido que a morte acontecesse em nossa família, por não termos evitado. 

E estes julgamentos ocorrem por falta de informações corretas sobre o que são suicídios e como eles ainda são tratados como tabu e por muito tempo sendo abordado de forma obscura, hoje, mesmo com campanhas de prevenção, há muita coisa sendo dita de forma equivocada o que faz aumentar os julgamentos sobre os enlutados. 

Opiniões erradas que ocorrem em vários setores, tendo um respaldo muito grande em algumas religiões, na área da saúde e na sociedade em geral. 

A começar por achar que dá para se evitar suicídios a qualquer custo na base do pensar positivo, ter fé em Deus e saber sobre os sinais, simplificando algo absolutamente complexo.

“Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.” 

Guimarães Rosa

A família sente o peso do estigma, fica marcada como estranha, a família pecadora, amaldiçoada, a que não cuidou, não percebeu, não evitou.

E não é só a família que é julgada, nossos amados também são julgados como egoístas, pecadores, covardes e loucos. 

Como se para esses juízes que tanto nos julgam, nós somos seres inferiores e eles especiais, muitos acreditam que estão imunes a isto. 

Principalmente pessoas ligadas a religiões, que julgam e condenam a família,  há religiões que não fazem o velório com os rituais e nem acolhem quem fica, tem algumas que nem permitem que os demais membros sejam avisados ou que deem as condolências quando ocorre uma morte entre eles. 

“Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”

Madre Teresa de Calcutá

Suicídios são multifatoriais e complexos demais para serem explicados de forma simples. 

Nós enlutados, temos uma grande dificuldade em sermos ouvidos e entendidos na vida social e até mesmo em consultórios, pois ouvimos, principalmente no mês da prevenção, que a família é a culpada pelos suicídios e ficamos receosos de compartilhar nossa história até com profissionais, pois ainda há muita desinformação sobre o assunto. 

Em palestras no mês de setembro que brotam “especialistas” e ouvimos que “famílias terceirizam os cuidados com os  filhos”,  de que todas as pessoas com pensamentos de autodestruição, “dão sinais claros de que vão se matar e que não enxerga quem não presta atenção no outro”, entre tantos absurdos que escutamos e lemos.

Esquecem da individualidade, colocam todo tipo de suicídio vindo de famílias desajustadas, pessoas que não valorizam a vida e que não foram ajudadas.

Estes tipos de comentários só fazem aumentar a culpa sobre nossos ombros e consequentemente os  julgamentos são intensificados, e por esse motivos somos afastados e nos afastamos das pessoas. 

E quando nos afastamos e nos calamos, perdemos a oportunidade de falar e as pessoas aprenderem com nossas histórias. 

Antes de abrir a boca penso no que já sofremos, aqui soa sem medo, com vontade, é puro peso, não ecoa no vazio quando falo “julgamento”

Poder da palavra – Julgamentos

Somos julgados por não conhecerem nossas histórias e portanto  há mais especulações sobre a nossas vidas e de quem se foi do que realmente fatos.

Quando falamos de nossos amados não queremos transformá-los em santos ou anjos, mas sim mostrar a sua humanidade, com erros e também com acertos, como qualquer outra pessoa.

E quando propomos compartilhar nossas vivências, não é para atrair compaixão ou nos fazer de vítimas, mas sim mostrar que suicídios podem ocorrer em qualquer família, com contextos e forma variadas, em pessoas que cultivavam uma fé e religiosidade, em pessoas com transtornos mentais diagnosticados e outros que não, em pessoas de todas as etnias e faixas etárias idem, em todas as classes sociais, em pessoas com e sem escolaridade e que suicídios acontecem todos os dias e em todos os lugares. 

E que a morte por suicídio definitivamente não resume quem se foi e que julgamentos só atrapalham o luto de quem precisa reaprender a viver depois que um suicídio acontece.

Pouco importa o julgamento dos outros. Os seres humanos são tão contraditórios que é impossível atender às suas demandas para satisfazê-los. Tenha em mente simplesmente ser autêntico e verdadeiro.”

Dalai Lama

Passar por um perda por suicídio é um dos maiores desafios que uma pessoa pode ter na vida e não é fácil e simples enfrentar os julgamentos, por mais autocontrole que se tenha. 

Pois também somos julgados pela forma como vivemos o nosso luto, se falamos, se calamos, se choramos ou rimos, se seguimos ou se ficamos sem direção. 

Mas o importante é que dentre este mar de gente sem noção que tanto nos julgam, podemos encontrar portos seguros, onde  lançamos nossas âncoras, para poder recuperar forças e aprender a enfrentar desafios e deixar que julgamentos nos machuquem tanto e nem nos paralise, nos dando esperança para assim que possível, levantar âncoras e seguir.

Pois no meio de tanta dor, às vezes esquecemos quem somos e precisamos recuperar nossa essência e nos aproximar mais de quem nos acolhe e nos entende, reaprender a viver uma vida sem culpa e sem medo, com mais braços abertos e com menos dedos apontados.

Quando alguém julgar seu caminho, empreste-lhe seus sapatos.”

Anônimo

Julgar é fácil, difícil é percorrer nossos caminhos, por este motivo, este trabalho com as palavras tenta levar compreensão de como nos sentimos e o desejo que menos pessoas passem pelo sofrimento que passamos, é uma utopia, mas plantando sementes, quem sabe um dia muitos possam vir a colher os frutos.

Colaboraram com este texto:* 

Dulcinea, mãe do Rafael

Elisabete, mãe do Leandro

Fernanda, irmã do Leandro

Ivo, pai da Ariele

Joseval, pai da Marina

Lígia, mãe da Julia

Terezinha, mãe da Marina

*Alguns colaboradores preferiram o anonimato

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