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Meu luto e os luto dos outros | Nomoblidis | Posvenção do suicídio

Meu luto e o luto dos outros

Aprendi rápido que o luto precisa ser vivenciado, pois um luto mal elaborado pode acarretar uma série de problemas futuros e que não é igual para todos. Cada um vive a sua maneira.

Eu vivencio o meu de uma forma, Joseval de outra, assim como meu filho e meus pais também têm seus jeitos.

Mas comecei a perceber que estava tendo uma preocupação muito grande entre nós de sempre estar bem pois é  como se fossemos peças de dominós enfileiradas, se um cai, derruba todos os outros. 

E passei um período observando se as pessoas ao meu redor estavam vivenciando o luto de forma saudável. Criando até uma certa tensão, pois tudo que fugia do controle, vinha logo a impressão de ser ligado ao luto.  

Eu, desde o começo sabia que precisava me cuidar, pois se eu não estivesse bem, não poderia cuidar dos outros, assim como percebo o esforço do Joseval na busca de estar bem para me ajudar e ajudar o Edgard nesta jornada. 

Joseval costuma chorar escondido, teme que eu meu preocupe além da conta com sua dor,  me acompanha aos grupos, no começo ele corria, mas teve que dar uma parada, mas percebo quando ele não está bem, assim como ele sabe quando não estou bem, e nós respeitamos os nossos espaços. 

Edgard quase não toca no assunto, sei que é devido ao espectro autista. Para ele a morte é algo que ocorreu e não tem o que fazer. Quando comentamos algo da Marina, ele fala dela, mas se o assunto for ligado a morte, ele se cala. 

Com a minha mãe também é assim, eu respeito o espaço e a forma como ela lida com a dor dela, ela sempre uma pessoa que não gosta de falar, se refugia na religião, se apega a sua fé e isso para ela basta.   

E um dos motivos que me levaram a montar um Grupo de Apoio foi justamente por achar que ela ouvindo outras pessoas contando suas história ela falaria também. Ela chegou a ir na primeira reunião e  falou que nunca mais teve alegria depois da morte da Marina. Foi doloroso ouvir essas palavras. 

E praticamente em todas as reuniões, ela vai até a porta, me abraça mas não entra,  me diz que sabe da importância que o grupo tem, mas que dói demais ouvir outras histórias. Entendi que o processo dela é o não falar, esperando que a ferida cicatrize.

Mas dias atrás tomei um susto, meus pais fizeram 50 anos de casados e houve a relutância de minha mãe com relação a celebração da data com uma festa, a convencemos,  ela só pediu que fosse algo simples, pois na cabeça dela, não há muito o que comemorar, devido a família estar incompleta. 

Conversamos muito sobre a importância de ter alguma alegria, apesar da dor. Que não deveríamos nos enterrar juntos, e que não estávamos esquecendo a Marina, e sim honrando a vida dela.

A festa aconteceu, foi linda. Ela ficou muito satisfeita com a presença dos amigos, dos irmãos, cunhadas e cunhados,  que vieram de longe, meus irmãos, minhas cunhadas, meus sobrinhos, meus primos e primas, enfim, ela teve um momento de alegria e isso era nítido.  

Porém, dias depois da festa, minha mãe adoeceu, teve Herpes Zoster e apesar do problema ser causado pelo vírus da catapora que fica incubado no organismo, segundo a médica, ele costuma se manifestar após uma carga muito grande de estresse, fazendo com que a imunidade fique baixa e o vírus apareça. 

Aí já acendeu a luz de alerta, fiquei imaginando o quanto ela segurou a barra para se mostrar firme e forte, se manter inteira estando em frangalhos por dentro. Mas depois de alguns exames essa preocupação se desfez, apesar de outras terem surgido.   

E após esse episódio eu fiquei pensando na quantidade de vezes que nós enlutados escondemos nossa dor para não preocupar quem amamos e fazemos coisas para mascarar a dor e na quantidade de vezes que atribuímos ao luto muitas coisas em nossas vidas.

E agora nesta época de festividades, surge aquela ansiedade de como vai ser o Natal, o Ano Novo, comemorar, festejar algo que para muitos perdeu o sentido, mas para os outros vai haver sentido sempre, pois passa pela reconstrução da vida cuidar de quem ficou e que merece um pouco de alegria. 

Não é fácil em nenhum dia, mas em algumas datas o peso do luto e a saudades são muito maiores e o coração parece que vai sair pela boca.

Eu não fiz planos para essas datas, já me acostumei com reuniões de família que nunca serão mais as mesmas, sempre faltará a Marina fisicamente, mas que ela estará sempre presente dentro de cada um.

E assim, devo sempre lembrar que o luto é individual e que ao respeitar os meus limites e o limites dos outros posso até ter a preocupação de cuidar do meu luto e zelar pelo luto de quem eu amo, mas que tenho sempre em mente que não posso fazer muita coisa a não ser estar presente da melhor forma possível e que se cair, que eu possa contar com alguém do lado para ajudar a levantar e vice versa.

5 Comments

  1. Mariliz Gritten disse:

    Oi Terezinha , lendo seu texto vi como suicídio marca a todos porém de maneiras diferentes ..minha mãezinha uns meses após o falecimento do meu irmão também teve herpes zoster não conhecia mas o médico também me explicou que tinha fundo emocional … Minha mãe sempre foi muito forte e nesse momento vi que a força dela também estava escondida …
    Um grande abraço força a todos nós que ficamos com saudades e a memória desses amados irmãos ,filhos …

  2. Edy disse:

    Oi Terezinha, gostaria muito de me comunicar com você, pois também estou passando por essa situação. Quero muito participar desse grupo de apoio, para ajudar e receber ajuda neste momento difícil. Obrigada

  3. Rogério Aurélio Vaz disse:

    Boa noite Terezinha, li o seu texto e estou passando por essa situação. Perdi meu filho e o sentido da vida. Gostaria muito de me comunicar com você. Obrigado

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