Os pertences
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Hoje completa um ano que um terremoto abalou as estruturas de nossas vidas, sacudiu o nosso chão, rachou as paredes e nos deixou sem teto.

Poderíamos chamar de tsunami, de furacão, mas enfim, uma tragédia chamada suicídio, que levou a vida de uma moça de 19 anos, nossa filha. E que nos obrigou a viver uma nova vida, uma vida que nunca pensaríamos um dia ter que viver.

Descobrimos que a dor de se perder um filho é imensurável e que dizer que um dia isso será superado e que o tempo cura tudo não é verdade.

Mas enfim, hoje refletimos sobre tudo que aconteceu, desde a hora que recebemos a notícia da  morte até este momento que eu Terezinha escrevo estas linhas em meu nome e em nome do Joseval.

Nestes últimos 365 dias, tivemos a certeza de que o amor é o único sentimento que permanecerá além da vida e que ele deverá sempre ser cultivado. Marina foi muito amada, mas infelizmente a depressão não a deixava ver o quanto, ela teve a certeza disso no seu último dia de vida quando voltou do coma, mas já era tarde.

Refletimos que  por mais que tenhamos feito todo o possível para ajudá-la, por mais que quiséssemos que ela estivesse aqui, não temos o controle da vida de ninguém e que ninguém é doente por que quer e nem sempre a cura chega.    

E que neste último ano,  envelhecemos muito, não só no aspecto físico mas em maturidade, e que nosso entendimento sobre vida e morte é bem diferente de uma ano atrás, a religiosidade e a fé também.

Descobrimos que amigos não sabem o que dizer e ao nos deixar sozinhos a amizade fica abalada e por mais que tentamos, não volta a ser a mesma.

E que pessoas que pareciam distantes, se aproximaram e que esse aconchego foi primordial para que nossa jornada se tornasse menos dolorida. E que pessoas que amamos, mesmo estando longe fisicamente, transmitem uma energia sem igual.

Descobrimos que só quem passa pelo mesmo sofrimento vai entender o seu, só quem sente a mesma dor vai compreender que o tempo pode passar, mas que a ferida está lá sempre aberta e não vai se sentir desconfortável se chorarmos e nem cobrar uma força que não temos.

Que a vida nos apresentou novos amigos que nunca gostaríamos de ter conhecido, pois infelizmente devido ao suicídio de nossos entes queridos nossa amizade está sendo construída.

Descobrimos que há profissionais de excelência que fazem toda a diferença, voluntários que se dispõe a ajudar, a ouvir, a acolher e há líderes religiosos que se calam e viram as costas para quem precisa de uma palavra de consolo.

E que precisamos de muitos profissionais da área da saúde mental, psiquiatras  e psicólogos especialista em depressão, suicídio e luto e principalmente de profissionais da área da saúde mais humanos.

Refletimos e chegamos a conclusão de que não somos obrigados a aturar pessoas que se acham imunes as mazelas da vida, que são insensíveis  e que podemos até ter laços de parentesco, laços comerciais, mas que são materialista e egoístas demais e que cortar esses laços foi preciso para manter a nossa sanidade.

Descobrimos que não somos guerreiros, somos sobreviventes em uma vida cheia de conflitos, mas que não escolhemos entrar nestes conflitos, fomos jogados neles e que apenas nos defendemos com as armas que nos foram dadas.

Descobrimos que o mais difícil de tudo é não ter a presença física de nossa filha, que sua ausência é sentida todos os dias mas que apesar de tudo que aconteceu nossa família permanece unida. Que as lindas lembranças que ela deixou  são muito mais importantes do que a forma como ela se foi e que o sorriso dela nos fará sempre lembrá-la com carinho e com muito amor e que ela viverá em nós, enquanto estivermos vivos. 

E com isso concluímos que o primeiro ano do restos de nossas vidas foi difícil e que os outros  continuarão a ser, mas que com a ajuda de muitos e tentando ajudar outros conseguiremos seguir em frente.

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