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O luto, vulnerabilidade e a fé - Posvenção do Suicídio

O luto, vulnerabilidade e a fé

Quando eu tinha uns 6 ou 7 anos de idade, uma amiguinha me mostrou um desenho de um lugar cheio de fogo e com pessoas sendo queimadas e falou que quem não era da igreja dela, iria direto para aquele lugar quando morresse, para o inferno.  

Na época eu nem entendia direito o que era morte, mas sabia o que era igreja e fiquei assustada e contei para minha mãe do desenho e perguntei se era verdade e se existia o tal lugar, minha mãe me respondeu que a menina só queria me assustar. 

E após a morte da minha filha,  passei por alguns momentos semelhantes quando escutei de algumas pessoas que eu estava na religião ou igreja errada e que estava perdendo a oportunidade de ganhar o céu.

Para mim, os maiores mistérios que existem são sobre a origem da vida, de onde viemos e o que acontece após a morte, a ciência tem algumas explicações, mas são as religiões que se propõem a responder sobre o pós vida.

Há muitas religiões no mundo, eu creio no Cristo, e mesmo dentre as religiões cristãs, existem divergências e interpretações sobre o que acontece depois da morte.

A maioria prega que o que acontece após a morte, tem relação direta com a vida. Seguir os preceitos e agir conforme a religião define como correto, poderá dar direito a um pós vida sem tribulações.

Essas crenças são importantes para muitas pessoas, principalmente na elaboração do luto, ter um lado espiritual, uma fé, para suportar tudo que a morte de quem se ama implica.

Porém, quando a morte é por suicídio que é considerado por muitos um pecado, surge muita gente falando coisas que ao invés de ajudar, acabam atrapalhando.  

E logo após a morte da minha filha fui percebendo que muitas coisas haviam ficado abaladas na minha fé, não a perdi, fiquei confusa e acredito que isso seja comum, sentir-se vulnerável, diante de uma morte traumática. 

Nesse período muitas pessoas me ofereciam e eu recebia de bom grado, manifestações de carinho em formas de orações e preces, em prol do meu fortalecimento espiritual, recebia mensagens, vídeos religiosos e isso realmente me fortalecia e me sentia acolhida em minha religião.

Entretanto, passado um tempo, comecei a receber convites para conhecer outras religiões e como eu estava  fragilizada e sabia que eu poderia me sentir mais confusa, agradecia e dizia que quando estivesse mais fortalecida, iria aceitar os convites.

Mas nem todas as pessoas que faziam esses convites entendiam essa minha postura e comecei a receber cobranças, de que é pelo amor ou pela dor que se transforma uma tragédia em um propósito de vida e isso incluía conhecer a verdade em outra religião, pois talvez a minha, não estivesse me dando as respostas e que precisava para não sofrer.

Que Deus estava me mostrando um novo rumo a seguir e que eu deveria abrir meus olhos e meu coração, para enxergar o caminho.

Imagine uma mãe que acabou de enterrar a filha vítima do suicídio, ouvir que essa morte seria na verdade, um propósito divino para que mudasse a forma de viver a vida, aceitar Jesus, como foi dito algumas vezes, francamente não creio em um Deus cruel a esse ponto.

Fora aquelas que vinham com o discurso de que eu devia parar de falar nela para ela descansar e as que falavam para onde quem se mata vai e que o sofrimento daqui continuava após o desencarne, pois como ela não cumpriu sua missão, devia pagar por isso.

Questionava por qual motivo uma pessoa se propunha a dizer algo que não acolheria a dor de quem não comunga da mesma crença e que está bem fragilizada, mas esses questionamentos não eram bem recebidos.

Mesmo explicando, falando da confusão de sentimentos que o luto traz, foi difícil me fazer entender, a insistência foi grande e precisei dizer várias vezes que eu não pensava igual, respeitava e queria o mesmo, com algumas delas precisei ser um pouco rude.

Agradecia e falava que entendia a boa intenção, que entendia que por ela se sentir tão bem em sua religião que queria que eu também sentisse, mas respeitar a fé e a religião alheia é um ato de caridade, principalmente em momentos de vulnerabilidade e no luto estava totalmente vulnerável.

Entendo que a pessoa agia como “pescador de almas”, pois é comum em religiões messiânicas levar o conforto com palavras e com isso buscar novos adeptos, só que ao falar dos mistérios da vida e da morte, acabaram tentando impor uma verdade que eu não comungo e passaram por cima da minha dor e da minha fé.

Algumas entenderam, outras nunca mais me procuraram e uma me perguntou se eu não tinha medo de perder a minha salvação como a minha filha havia perdido e ir para o inferno.

Então me lembrei do inferno que a coleguinha me mostrou lá na minha infância, mas não sou mais aquela menininha e não acredito nesse inferno.

Acredito que não há religião certa ou errada, existe aquela que a pessoa se sente acolhida, confortada e não com medo e obrigada a viver desempenhando papéis de olho em uma recompensa.

E penso que se há essa recompensa por parte de um Deus e ter um passaporte para se entrar neste céu proposto ou para se tornar um ser iluminado, ser salvo, reencarnar e para haver o reencontro com quem se foi, respeitar o luto, a vulnerabilidade e a fé alheia, conte como um carimbo.

1 Comment

  1. Marta disse:

    Só mesmo quem já perdeu um ente querido por suicídio, pode entender o turbilhão de questionamentos e sentimentos que temos que enfrentar.
    Muitos tentam “justificar” o acontecimento e acabam por nos deixar piores do que estamos. Acho muito bonito falar em empatia, mas a verdade, é que ninguém ocupa realmente o lugar do outro. Tem que sentir na pele, no coração.
    Se sobrevivemos é porque temos fé e ela nos traz esperança. Essa fé que nos mantém, é muito peculiar, não tem que ser manipulada e nem induzida. Deve ser respeitada, como o nosso tempo de luto.

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