O Suicídio, os julgamentos, condenações e a salvação
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Suicídio prevençao e as incoerências | Posveção e prevenção do suicídio | Nomoblidis
Suicídio, prevenção e as incoerências
07/03/2020
Enigma | Posvenção do Suicídio | Nomoblidis

Photo by Lefty Kasdaglis on Unsplash

Enigma

Nestes quase 3 anos de luto, ainda não consegui assimilar e compreender o motivo de que certas coisas me machucam mais que outras, um objeto, um lugar que me faz lembrar de algo que fizemos juntas, um cheiro, momentos bons e outros, nem tanto.

Eu imaginei que seria impossível continuar vivendo na mesma casa depois da morte da Marina, no entanto, ainda estou vivendo nela e quando penso em sair e ter que deixar todo o espaço que dividimos para trás, já fico angustiada.

Se tudo que alí está, me remete a ela, fico me questionando por qual motivo somente algumas coisas pontuais me maltratam tanto.

E não sei se devido a Marina ter sido muito musical, músicas são os meus pontos fracos. Não consigo até hoje ouvir músicas que ela gostava sem sofrer demais. 

E outro dia, estava eu e Joseval indo para algum lugar, quando no rádio do carro começou a tocar uma música da banda Paramore, Decode.

Naquele momento eu respirei fundo, comentei com o Joseval que a música me lembrava a Marina e  engoli o choro, mas depois fiquei muito mal. 

A música tem muito significado para mim, pois marca um período cheio de mudanças em nossas vidas, a pré-adolescência da Marina, época que ela entrou de cabeça na febre da Saga Crepúsculo, leu os livros, viu os filmes e eu e Joseval íamos com ela ao cinema e conversávamos sobre nossas impressões da estória.

Tempos depois quando estava  na adolescência, não quis mais saber de nada que lembrasse essa fase,  dizia que era algo negativo na sua biografia.

Foi nesta época que ela começou a desapegar dos livros e  começou a distribuí-los, até os que ela tanto gostava de ler, não só da saga, mas também outros, inclusive coleções inteiras que ela levou um bom tempo para adquirir, ela doou, ela dizia que livros não deveriam ficar guardados, eles deveriam circular. 

E sempre que o assunto da Saga surgia ela se justificava dizendo que na época que gostava das estórias, que as acha interessante,  ela não tinha discernimento para saber o que era bom ou ruim e que não queria mais ser lembrada, e as únicas coisas  boas que ela considerava da época, eram as bandas que ela conheceu devido aos filmes. 

Inclusive foi a um dos show da banda quando ela esteve no Brasil. Mas tirando a parte da trilha sonora, ela não gostava de falar no assunto. 

Ela ficava irritada sempre que se falava algo sobre a paixonite dela pelos livros e pelos filmes, e tínhamos uma longa conversa sobre mudanças de gostos e hábitos. Ela dizia que sentia vergonha de ter gostado de algo tão bobo, de um romancezinho tão água com açúcar, inclusive, se negou a ver o último filme.

Eu dizia para ela que o passado não se mudava, explicava que ela não precisava ter vergonha de nada, pois tudo fazia parte do aprendizado e que se na época ela gostava, era devido a ela estar em uma fase diferente e que isso não era nada desabonador.

Ela insistia em dizer que não gostava de ser lembrada então eu brincava dizendo que ela possuía duas coisas que podiam manchar a sua reputação, uma era ter sido fã da Saga Crepúsculo e a outra era ter tido um disco da Kelly Key quando era criança e a conversa terminava com muitas gargalhadas.

Eu achava um tanto interessante a forma como ela encarava certas coisas em sua vida mas não via como algo preocupante, afinal, somos feitos de experiências e sofremos mudanças constantemente.

Mas Marina tinha uma necessidade muito grande  de mudar os rumos das coisas que a incomodavam. Tinha uma vontade enorme de resolver as coisas, se preocupava com os problemas dos amigos e acreditava que se todos estivessem bem, ela também estaria e quando não conseguia resolver, se sentia culpada.

Tinha um temor muito grande em desapontar ou prejudicar alguém e eu acreditava que isso era um traço de personalidade ou mesmo que lhe faltava maturidade e que isso com o tempo se resolveria e nunca imaginei que isso poderia ser um problema.

Mas  como eu mesmo a ensinei, o passado não se muda e o que me resta agora são as lembranças e gosto de lembrar de suas  gargalhadas e do seu jeito meigo e carinhoso de ser. 

A letra da música que tocou no rádio naquele dia, dizia no refrão: “How did we get here, when I used to know you so well?”

“Como nós chegamos até aqui, se eu costumava te conhecer tão bem?”

Eu não sei a resposta e inclusive esta pergunta, juntamente com outras, me atormentaram por um bom tempo, pois achava que a conhecia, mas diferentemente do nome da música, “Decode” que em português quer dizer “Decifrar”, não dá para decifrar as pessoas e nem decifrar os motivos que a levaram ao suicídio.

Se isso fosse possível, não existiriam tantos casos e pelo que vejo, cada ano o número só vem aumentando.

Um dia eu ouvi de uma amigo sobrevivente de tentativa que suicídio é um enigma e enigmas não são decifrados.

Assim como o suicídio, o luto que se segue é um enigma impossível de se decifrar, acredito que devido ao emaranhado de sentimentos e as perguntas sem respostas.

E além disso, não sei até quando me sentirei mal em ouvir as músicas que ela gostava, por isso evito ouvir e também não sei se um dia entenderei o motivo de algumas coisas me machucarem mais que outras, mas seguirei um dia após o outro com minha jornada de aprendizado.

4 Comments

  1. Daniela Brito Dos Santos disse:

    Também perdi um filho de apenas 12 anos , e existem situações que para algumas pessoas parecem simples ,mas me deixam por dias mal, um comentário ,um lugar , uma comida ,ver os amigos dele de escola seguindo ,imagino que ele poderia estar ali, sinto a falta do abraço dele todas as vezes que eu entro e saio de casa , no mercado ao passar na sessão de coisas que comprava pra ele ,procuro nem olhar , em lojas fico tocando nas roupas que provavelmente serviriam nele , na hora das refeições em casa tudo ficou mais organizado, ele movimentava essa casa , trazia vida ,com as bagunças o tempo todo ,não parava de comer e.jogar , e eu adorava quando ele vinha me abraçar depois que tomava banho , sempre cheiroso, difícil acreditar que aquele menino de apenas 12 anos se foi , fazíamos tantos planos sobre o futuro dele , brincávamos como dias crianças e aos poucos ele foi mudando ,o sorriso foi embora , comportamento diferente e eu achei q era a.adolecencia ,e um dia recebi uma ligação da madrasta dizendo pra eu largar tudo o q eu estava fazendo porq meu filho precisava de mim ,nunca esqueço foi só isso q ela disse , imediatamente fui para a.casa do pai dele de Uber, no meio do caminho meu telefone não parava de tocar, infelizmente meu filho havia tirado a sua própria vida , antes de chegar a casa do pai ja sabia da notícia, parecia q não era comigo , demorou pra acreditar, quando cheguei em frente a casa que eu vi duas viaturas da polícia ao invés de uma ambulância , entendi tudo , infelizmente era verdade , aquele menino carinhoso que amava muito a sua família por algum motivo tirou a sua vida ,nos deixou aqui com muita tristeza, agora nessa nova caminhada ,não temos mais as piadas , as brincadeiras dentro de casa acabaram , tudo mudou, estamos a um ano e 4 meses recomeçando, no começo achei q seria impossível , por muitas vezes senti vontade de morrer , mas graças a Deus a vontade vem e passa ,sigo me cuidando, descanse em paz meu anjo Lucas ❤️😞

    • Terezinha C. G. Maximo disse:

      Daniela, sinto muito por sua perda.
      Não é fácil prosseguir com a vida depois de uma tragédia desta, mas vamos aprendendo, um dia de cada vez, uns dias tropeçamos e em outros conseguimos caminhar.
      Logo depois da morte da Marina, quando ia colocar roupas para lavar, passar, a casa ficou absurdamente silenciosa. Não tinha mais o cheiro do perfume que ela usava e nem o cheiro do café que ela fazia logo cedo. Quando ia colocar os pratos na mesa, o lugar dela vago.
      O que eu posso evitar eu evito, mas tem outras que não dá, pois tudo lembra.
      No mercado, até fugia de alguns corredores mas teve um dia que caí no choro quando vi um biscoisto que ela tanto gostava.
      E até hoje quando vejo uma roupa que com certeza ela ia adorar, também me machuca muito.

      Um grande e forte abraço.

    • Marcia disse:

      Tambem perdi minha filha de 12 anos dessa forma. Eu me sinto tão sem chão, sem esperanças… Mas sei q preciso continuar, não por mim mas por minha outra filha de 3 anos.

  2. Lua disse:

    Em 2018 eu tentei suicídio. N obtive “sucesso”, vivi o horror na ala de reanimação do hospital, ouvi deboche de médicos e enfermeiros e vi meu pai se perguntando onde ele errou. Mas n é sobre ele, é sobre mim e sobre esse mundo pesado demais, tudo me dói e me cansa e eu não me encaixo mais. Tem dias que eu planejo o futuro distante e em outros q só quero dormir pra sempre. Nunca se culpem, n há nada q vcs poderiam fazer pra evitar. A batalha é interna e o oponente é gigante. Difícil encarar. Fiquem bem.

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