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Aonde quer que eu vá

Logo após a morte da Marina, tentei me ocupar o máximo para não ter tempo de ficar pensando no ocorrido. Mas percebi que era um erro, trabalhava e estudava como anteriormente, mas sempre com a angústia e a tristeza como companhias.

Sentia uma necessidade de falar, me via perdida, sem rumo, pensei que iria enlouquecer.

Ia colocar a mesa e o espaço dela ficava vazio, separar as roupas para lavar, as dela não estavam mais no cesto, o quarto deixei com a porta fechada, depois resolvi deixar aberta, a casa ficou silenciosa, um vazio descomunal, enfim, ela não voltaria mais, não tinha como ficar me enganando.

Todos os dias eram muito difíceis, mas quando chegava o sábado e o domingo, batia o desespero, justamente nestes dias que nós ficávamos mais juntas pois tínhamos algumas programações. 

Fui percebendo que o luto é uma fase de aprendizado, uma fase de adaptações, um processo onde há a necessidade de encontrar um caminho para a nova vida que se apresenta sem a pessoa que se ama.

Fui aos poucos descobrindo que precisava viver o luto para não viver em luto e que cada luto é único, assim como cada individuo, algumas pessoas preferem ficar isoladas, outras preferem se cercar de pessoas. Umas gostam de falar, outras preferem calar e eu sentia um misto de tudo isso.

Não tinha vontade para nada, saía apenas para compras no mercado, ir à casa dos meus pais, ir ao médico, não havia o mínimo de disposição para fazer algo além da rotina.  Ao mesmo tempo que queria ficar em casa me angustiava em ter que viver no mesmo espaço que dividia com ela, tudo muito confuso.

A primeira vez que eu e o Joseval resolvemos sair  para fazer um passeio, foi justamente na terceira semana de maio, dois meses após a morte, era um domingo frio e chuvoso, decidimos ir  a um lugar onde nunca havíamos ido antes,  escolhemos o Sesc Belenzinho onde estava acontecendo uma exposição de artes Naïf.

Saímos de casa por volta do meio dia, chegamos ao Sesc e fomos almoçar, depois fomos à exposição, andamos por vários espaços do lugar e participamos de uma cerimônia do chá. Era a Virada Cultural e estava acontecendo alguns shows, assistimos ao Bandaokê, e estávamos achando a nossa tarde bem agradável.

Quando decidimos ir embora, no caminho para o estacionamento que fica no subsolo, eu  fiquei uns passos a frente do Joseval e fui surpreendida com o seu chamado dizendo que precisaria voltar pois havia um menininha perdida que estava nos seguindo.

Só me lembro de ter olhado para trás e visto uma menininha que devia ter uns 4 anos no máximo, branquinha com os cabelos encaracolados na altura dos ombros, vestida com uma calça rosa e uma blusinha branca, sorridente ao lado dele.

De repente veio um rapaz correndo chamando: Marina, Marina! Pegou no braço dela e a levou com ele. Joseval ainda questionou: Marina?

O choro foi instantâneo, nós não nos olhamos, continuamos a descer as escadas, eu fui direto para o carro, ele foi pagar o estacionamento, a moça do caixa perguntou se havia acontecido algo, nós entramos no carro e ficamos por alguns minutos chorando copiosamente sem entender nada. De lá fomos direto para uma Igreja rezar por nossa Marina, foi a única coisa que me ocorreu.

Após a missa, voltamos para casa meio anestesiados, na homilia o padre falou da morte e dos planos que não são realizados quando somos surpreendidos pela morte repentina de alguém que amamos e de o quanto ter fé ajuda a conduzir a vida com sabedoria diante de tanta dor e desespero, as palavras dele pareciam que haviam sido direcionadas justamente para nós.

Contamos este episódio somente para algumas pessoas e cada um teve um entendimento baseado em suas crenças.

Eu só sei que se fosse em uma época diferente acharia que era apenas uma coincidência de nomes, corriqueiro, afinal de contas, quantas Marinas devem existir em São Paulo. Pensei em muitas coisas, mas nunca me convenci de nada. Apenas de que a Marina não está mais aqui fisicamente mas, aonde quer que eu vá, ela sempre estará comigo.

5 Comments

  1. Suzi disse:

    Quanto amor nessas palavras!

  2. Vanuce Bento dos Santos disse:

    Querida terezinha.
    Tão bom e ler esses textos ,é o nosso retrato de pais enlutados.
    Nossos filhos sempre estão conosco mesmo,o que quer que façamos ,estão em nosso pensamento,como esquece-los ,nunca.
    As ruas por onde caminhamos,os cachorros ,objetos,os alimentos preferidos,enfim tudo tem lembrança.
    Domingo fui tomada por muita emoção.abrir o armario de cozinha olhe abrir a geladeira e vi o quanto estava desorganizado ,percebi que Bia não tinha colocado a mão ali,cai num choro tao intenso e dizia pra mim mesma ,nada nunca mais será como antes!!Minha metade!!!
    Filha te amo demais….

  3. Jaqueline disse:

    É muito bom ler os seus textos, Terezinha. Além da escrita primorosa, sinto a emoção e o amor sempre presentes, ressignificando a dor. Já fui uma pessoa que passava cada acontecimento pelo crivo da “racionalidade”. Mas com o tempo, tenho mudado e acredito que essas “coincidências” são mesmo um lembrete de que há alguma coisa além da matéria e do tangível, que eu particularmente não sei definir, mas acredito que exista. É emocionante ver o quanto a Marina é amada e todas as memórias bonitas que ela deixou. Como no trecho do poema de Drummond “Além do amor não há nada. Amar é o sumo da vida”(…). Um grande abraço.

  4. Vagner Ferreira Maia de Oliveira disse:

    Olá, Joseval e Terezinha . Aqui é o Vagner tive o prazer de conhecê-los na reunião da Elis.
    Parabéns pelo lindo trabalho que estão realizando, a dor é pedagógica e estamos todos neste processo intenso de aprendizado.
    Um forte Abraço!
    Até mais…

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