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O Cacto e o luto
23/11/2019
Falar de luto é falar de vida | Nomoblidis | Posvenção de Suicídio

Falar de luto é falar de vida.

A frase da Dra. Valéria Tinoco, “A morte hoje está muito mais ligada a um fracasso do que a algo natural”  me fez pensar muito. 

Dois anos e oito meses que vivencio o luto, um processo que anda, pára e que e a primeira coisa que aprendi foi que a maior dificuldade é ter que reconstruir a vida sem minha filha, não está sendo fácil, mas fingir que nada ocorreu seria o pior caminho que eu teria que seguir. 

E nesta minha caminhada, percebi que em nossa sociedade a morte está passando a ser vista como um erro de trajeto e não como algo que ocorrerá com qualquer um.  Por ser algo que traz sofrimento a maioria das pessoas evita o assunto, um tabu muito grande pois não se fala de morte e de morrer.

Penso que essa fuga em relação a morte seja uma parte atribuída a cultura cristã, que coloca a culpa do sofrimento e da morte no pecado original e todo cristão é herdeiro dele e então muitas pessoas creem que morrer é punição.

A morte só é aceita quando ocorre em idosos, pois entendem que cumpriram o seu papel, antes não poderá acontecer, para muitos a morte denota falta de fé, afinal se for obediente e fiel aos ensinamentos da religião, nada de mal acontecerá, inclusive a morte.

E essa  crença faz com que o enlutado que perde alguém jovem, se sinta um desafortunado, pagando por uma dívida que nem sabe como adquiriu e isso faz com que o peso do luto fique maior, dificultando muito a elaboração do mesmo. 

E como o assunto morte é visto como algo a ser evitado a todo custo, comecei a perceber que não só na morte por suicídio onde o fracasso e a culpa são apontados mas que em outros tipos de mortes também.

Uma pessoa que morre por doença cardíaca é culpada por não ter se cuidado, não ter feito atividades físicas, comido moderadamente, feito exames periódicos.  O mesmo ocorre por quem desenvolve um câncer seja lá onde for, afinal há campanhas e campanhas de prevenção e só morre de câncer quem quer. Acidentes são descuidos, e assim por diante.

O luto é uma fase tão confusa, que alguns enlutados encontram dificuldades e não sabem nem como se portar depois da perda de um ente querido. Ao ponto de temer serem vistos como insensíveis, que a aceitação veio rápido demais quando se adequam a nova vida, e em contrapartida se ficam abalados por um período maior que o dito convencional, temem serem vistos como fracos, que sentem remorso, entre outros absurdos que se ouve por ai.

Luto não tem regras nem tempo, cada um há de encontrar a sua forma de reaprender a viver, e poder conversar com pessoas que passam pelo mesmo, ajuda, por isso a importância dos grupos de apoio.

Algumas pessoas me perguntam  o que se faz em um grupo de apoio aos enlutados, achando que só se fala de morte, o choro é presente o tempo todo ou a lamúria toma conta do ambiente.

Nos grupos não falamos só de morte, falamos de vida. Da vida de antes e da vida de agora e quem procura por grupos, entende que precisa de ajuda para recomeçar, precisa de um espaço para falar de quem se foi sem ter medo de ser considerado inconveniente, inapropriado, busca entender que faz parte do luto reviver as memórias e falar de suas dificuldades de adaptação a nova vida, sem ter cobranças de prazos, sem julgamentos.

Nos grupos fala -se e encara-se a morte como algo que aconteceu e que não se pode mudar, busca-se uns nos outros um acolhimento que fora do grupo nem sempre consegue encontrar, pelo pavor das pessoas em falar sobre perdas.

Por medo de encarar um assunto que mais cedo ou mais tarde todos irão enfrentar, no meu luto, descobri que não falar de morte não me ajudou em nada quando ela chegou.

E que para mim ao tomar ciência que a vida acaba, não que não a tivesse, mas era algo muito longínquo, passei a dar mais valor ao que realmente precisa e não me apegar tanto a coisas que não me acrescentam nada e eu hoje espero menos, ajo mais e amo como se não houvesse amanhã, pois como dizia o poeta Renato Russo, se você parar para pensar, na verdade não há.

2 Comments

  1. Regina Brum Rodrigues disse:

    Faz um ano que perdemos nosso irmã e ainda e muito difícil saudades recentemente ouvi a música Nilton Nascimento e a frase
    Amigos e coisa para se guardar tudo fez sentido

  2. Cláudia disse:

    Também perdi uma filha muito jovem e tudo o q vc escreveu eu entendi perfeitamente, e com certeza os grupos de apoio possuem sim muita importância nessa caminhada dos q tentam sobreviver ao lidar com tudo o q aconteceu. Obrigada por compartilhar!!

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