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A imortalidade

Antes do suicídio de minha filha acontecer, eu planejava trabalhar com alguma obra social ligada à terceira idade, pois sempre me dei bem com pessoas mais velhas, sempre tive um carinho muito especial pelas cabecinhas brancas e consequentemente, trabalhar com idosos requer ter uma visão diferente a respeito da morte pois a morte é a nossa única certeza na vida, escuto isso desde criança, mas quando ela chega em nossa casa, não conseguimos aceitar o fato.

Aceitar a morte de uma pessoa idosa já é difícil, imagina a morte de um jovem que tinha tudo pela frente.  No Brasil a média é que uma pessoa  viva até os 75 anos, muitos já passam desta idade, mas muitos morrem jovens, uns lutam contra a morte mesmo sem condições de continuar a viver e outros como no caso da minha filha, procuram por ela.

E depois da morte da Marina, descobri que a faixa etária onde ocorrem mais suicídios é a dos 70 anos para cima e fiquei perplexa, pois imaginava que isso não ocorria tanto nesta idade, afinal já estão no corredor da morte por assim dizer é uma questão de tempo, mas como aprendi também, o tempo para quem sofre é cruel. 

Pessoas idosas se sentem sozinhas e inúteis devido a aposentadoria, doenças crônicas, viuvez, a depressão se instala e vai corroendo a vivacidade de quem antes tinha uma certa altivez e independência, levando-o ao ato extremo. O impacto que essas mortes deixam na vida de quem fica é exatamente o mesmo de uma pessoa mais jovem, pois não há medida para a dor e nem comparação.

Duas mortes praticamente simultâneas a da Marina e de pessoas idosas que faziam parte de minha vida me fizeram fazer uma grande reflexão sobre o sentido da vida, essas mortes foram naturais e me impactaram de formas diferentes.

Meu avô materno viveu 100 anos, morreu por morte natural 18 dias antes da Marina. Enquanto meu avô brigava contra a morte e seu corpo sucumbia, Marina ousou procurar por ela, 81 anos separavam meu avô da Marina, meu avô mesmo sabendo que um dia a morte chegaria e cada vez mais rápido, pedia que rezássemos para ele viver mais. 

Marina não chegou a viver um quarto do que meu avô viveu e achava que a vida era difícil, a maturidade para a Marina não chegou e no meu avô ela transbordava. 

O meu antigo vizinho, Sr. Leonardo morreu também de causas naturais,  23 dias antes da Marina, para ele a vida era um ciclo, ele recitava um poeminha que falava justamente sobre isso, odiava o fato de estar velho, mas esperava pela morte como quem espera um amigo. Ele morreu sereno, deitado no sofá da sala aos 84 anos.

Eu tinha um carinho muito grande por ele, ele me ensinou muitas coisas, falava muito da solidão, falava que devíamos cuidar das pessoas que amávamos, pois um dia elas iriam embora e que o arrependimento era o pior dos sentimentos, pois muitas vezes não tem como consertar algo que fizemos, falava muito em ter amor próprio e ser justo e agradecido sempre. 

Esses ensinamentos hoje me ajudam muito, pois entendi que a relação que tinha com minha filha, me faz olhar para trás sem arrependimentos, eu a amei muito e continuo a amando.  Eu a ensinava que amar não é só ficar dizendo o tempo todo que ama e sim cuidar, estar próximo, querer  bem, aceitar o outro como ele é, respeitar. Que amar é agir, palavras o vento leva, o tempo apaga e as ações permanecem e fazem com que as pessoas que amamos sejam eternas.

Estes dias eu  peguei para reler o livro do Professor Mário Sérgio Cortella “Não espere pelo Epitáfio”  e ao folheá-lo, na primeira página há o autógrafo do professor que ele simplesmente diz, “Terezinha: vida!.”

E imediatamente me lembrei do dia que eu assisti uma palestra que ele falou do escritor Mário Quintana, que queria em sua lápide a seguinte inscrição “eu não estou aqui” e que morrer é ser esquecido. O professor explica que o Mário Quintana queria dizer com a frase na lápide era que a pessoa que morreu fica em nossas vidas e está nas coisas que ele deixou e no que ele fez em vida e este é um conceito de ser eterno, de ser imortal.

Para mim isso é uma verdade, a Marina não está no túmulo, assim como o sr. Leonardo, assim como meus avós e todos os nossos entes queridos, eles estão em todos os atos que fizeram em vida, em todas as coisas boas que eles deixaram, eles estão em nós e isso é a imortalidade.

Pois para mim a morte e a vida fazem parte de um mistério, se houve outra vida passada e se não é me dado a permissão de saber, é um mistério, se há uma futura, não sei também e continua sendo um mistério e só me cabe viver essa, cuidar dessa e fazer dela o melhor que eu puder e enquanto eu viver, a Marina viverá em mim. 

 

Cortella, Mario Sergio. Não espere pelo epitáfio… ; provocações filosóficas: Vozes, 2012

6 Comments

  1. Maria Cristina da Silva miguel disse:

    Lindo e verdadeiro Terezinha minha amiga de sds. Sou a Cris de Santos , mãe da Mariana. Bjs No coração de vocês.

  2. Renata disse:

    VC é Sensacional! Como é bom ler seus textos que a nós nos identificamos!

  3. Kátia disse:

    Tenho uma satisfação enorme em ler seus textos. Me ajudam muito! Tive o prazer de conhece-los no grupo em Moema! Perder alguém da forma que perdemos não é fácil!!!

  4. Jose Luiz Nunes disse:

    Não tem jeito mesmo , lendo seus textos me identifico e logo chego a mesma conclusão: Terezinha vc é o Máximo! .forte abraço.

  5. Citou dois anciãos, cem e 84 anos, amantes da vida, apesar das agruras da velhice, em contraponto à sua filha, desgostosa da vida, apesar do viçosa juventude e longa existência pela frente . . .
    Idosos que procuram abreviar ainda mais o breve momento da morte que está próxima . . .
    Todas as fases da existência humana nos propõe desafios inesperados, por vezes terríveis . . .
    Reflexões que decerto germinarão sementes ainda adormecidas nos nossos corações . . .
    Belo texto, Terezinha !
    Parabéns!

  6. Eliézia Tiago disse:

    Lindo texto Terezinha.
    “A morte de quem amamos torna-se imortal dentro de nós”.
    Discipula do Cortella, uma bela escritora você se tornou. Parabéns!
    Beijos.

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