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A Gratidao no Luto - Posvenção do Suicídio

A gratidão no luto

Uma das coisas que escutei e ainda escuto sobre a morte da minha filha é que devo ser grata.

Só que gratidão é uma emoção que no luto não é fácil de expressar, tudo fica muito confuso  e quando escuto que o enlutado deve ser grato entendo que a gratidão se aplica pela oportunidade de ter vivido o período juntos, mas não por ter acontecido o que aconteceu e tem algumas pessoaa que tentam me fazer pensar que poderia ter sido pior.

Eu não imagino algo pior que perder um filho por suicídio e fico me perguntando se essa pessoa sabe realmente do que está falando ou está apenas querendo invalidar e calar a minha dor. 

E na dor, na perda, no luto não se consegue ter essa gratidão de imediato, a pessoa que perde alguém tem o direito de se indignar, se revoltar, questionar e ter sua dor validada e não é uma questão de ingratidão.  

Quando ocorreu a morte eu queria o minha filha ali comigo, era algo inacreditável  e não havia nada que outra pessoa me falasse que tiraria  a dor que sentia e nenhum discurso me fez enxergar por outro ângulo a não ser o meu, não me  interessava se haviam pessoas sofrendo mais ou menos, eu só sentia a minha dor e não cabia gratidão naquele momento e nem o pensamento do que poderia ter sido pior. 

E no luto isso se intensificou pois apareceram pessoas para lembrar que poderia ter sido pior se ela tivesse morrido logo, poderia ter sido pior se ela fizesse  publicamente, poderia ter sido pior se o caixão fosse lacrado ou se eu havia pensado nas mães de filhos desaparecidos. 

Reconheço todas essas dores, mas isso não anula  a dor que eu sinto pela morte da minha filha. 

E essa invalidação da dor acontece também quando algumas pessoas me falam que poderia ter sido pior se eu não tivesse outro filho e aí sou obrigada a dizer que cada filho é único e que poderia ter sido pior se eu não tivesse um companheiro que me apoia.   

É claro que  gratidão cabe no luto, mas no tempo, com o processo de ressignificar e esse tempo não é igual para todos e forçar essa percepção não ajuda em nada, só faz com que a pessoa se sinta culpada. 

3 Comments

  1. Renata Christina Monteiro disse:

    Perfeito

    • Marcia Matos disse:

      Respeitar a diferença absoluta do outro, inclui a sua dor, e requer um lugar de humildade que vem do exercício singular de beira e abismo que cada um deve a si mesmo: esse importante reconhecimento de margem que valida a experiência de cada um para si mesmo, e a partir da qual só tocamos o outro como estrangeiros.

      Sempre se está lidando com o estrangeiro em seu percurso único.

      Descuidar disso é cair na armadilha imaginária, e sempre selvagem, que responde ao nome de “boa intenção”.

  2. Vanuce Bento dos Santos disse:

    Cada um tem seu tempo,ouvi muita frases que a intenção era ajudar,mas, machuca mais,sintia raiva”Deus sabe o que faz,você tem outra filha,você não viu,é falta de Deus,outra cruel é dizer que são covardes,!!!a dor é tão incalculavel, que se tornava pior,confesso que ainda estou perdida,ainda na avalanche….

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