Picolé de laranja derretendo sobre fundo escuro, ilustrando a metáfora do luto como algo amargo e sem solução referência à história de Marina e sua pesquisa sobre sorvete de laranja.
O picolé de laranja e o luto
08/05/2026
Picolé de laranja derretendo sobre fundo escuro, ilustrando a metáfora do luto como algo amargo e sem solução referência à história de Marina e sua pesquisa sobre sorvete de laranja.
O picolé de laranja e o luto
08/05/2026

Nove anos de luto por suicídio: o que mudou em mim

Quando releio os primeiros textos que escrevi percebo o quanto minha forma de pensar mudou, porque além do tempo ter passado, muita coisa consegui fazer com tudo isso que aconteceu.

São nove anos. Quase uma década inteira de um caminhar que começou eu me arrastando e estraçalhada e que, ano a ano, foi tomando novos rumos. Cada ano do luto foi diferente do anterior. Não existe uma linha reta, nem uma chegada. Há dias de mais silêncio, outros de mais movimento. Há dias em que a saudade pesa mais, outros em que ela apenas caminha ao meu lado, ela não diminui, apenas se organiza dentro de mim. 

Não existe “depois do luto”

Aprendi que o luto não é um evento que se encerra para que a vida recomece. Ele se integra, à minha rotina, ao meu olhar. Passa a fazer parte do que sou, da forma como ouço o outro e de como enxergo o mundo. Aprendi que não há “depois do luto”. Há a vida com ele.

O ritmo da escrita e do acolhimento mudou, mas não parou

O ritmo das coisas também mudou .O blog anda mais silencioso, o trabalho intenso e necessário na Abrases, tem tomado tempo. Os textos mais longos muitas vezes ficam guardados, enquanto os pensamentos mais breves vão para o Instagram. Mas a escrita, em si, nunca parou. Ela continua sendo meu canal de respiração, mesmo quando as palavras ficam apenas para mim. O grupo de apoio que criamos lá atrás, em 2018, continua forte, acolhendo.

Acolhimento também é coragem

Entendi que só quem atravessa esse luto consegue compreender, ainda que parcialmente, a dimensão do que ele representa.

Continuo acreditando no acolhimento, mas hoje sei que ele não nasce apenas da delicadeza. Ele também nasce da coragem de enfrentar o silêncio, de questionar práticas que não funcionam e de insistir em construir caminhos mais humanos e mais honestos para quem permanece.

Só morre quem é esquecido

Escrever, falar, acolher e lembrar são as formas que encontrei de manter o que é eterno. Porém percebi cedo que só quem realmente conhece esse luto, senta para ouvir o outro, que falar e estudar sobre morte não exercita empatia e a verdade concreta que esses nove anos me ensinaram é que a morte física não é o fim de tudo: só morre quem é esquecido.

E a Marina, através de cada passo que dou, de cada escuta ética, de cada abraço compartilhado e do amor que se transformou em ação coletiva, continua se fazendo presente. Ela vive na memória que preservamos e no afeto que escolhemos espalhar.

O amor que permaneceu

Nove anos depois, confirmo que não foi apenas o luto que me transformou. Foi o amor que permaneceu. 

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