
Nove anos: a travessia do luto
15/03/2026
Um picolé de laranja sobre o sabor do luto
Tempo estimado de leitura: 4 minutos
Quando Marina estava finalizando o curso de Técnico em Química e procurando um tema para apresentar no Trabalho de Conclusão de Curso, decidiu investigar uma questão que a intrigava: por que não existia sorvete de laranja?
A pergunta que Marina trouxe para casa
Ela chegou em casa cheia de convicção, dizendo que devia haver alguma solução para aquilo. Afinal, laranja é uma fruta tão abundante, barata, popular, então por que não existia sorvete de laranja como existe de limão, abacaxi e tantas outras frutas cítricas?
Eu dizia a ela que talvez fosse uma questão de sabor. Confessava que eu mesma não gostava de nada com laranja na composição, somente da fruta in natura ou do suco feito na hora, as demais formas, suco concentrado, bolos e doces, sempre achava indigesto, amargo e estranho.
O que a química descobriu
Mas Marina não se contentava com explicações simples. Foi pesquisar. Primeiro no Google, depois em livros, conversando com professores, entendendo a composição química da fruta.
E descobriu que realmente havia um motivo: a laranja não funciona bem congelada. O frio altera o sabor, concentra o amargor. Além disso, a fruta não possui gordura suficiente para dar cremosidade ao sorvete e, quando misturada ao leite, tende a azedar. Quimicamente, não funcionava e portanto, não seria algo comercialmente vendável.
Mas, ainda assim, ela insistia que alguma coisa poderia ser feita, cogitou até a possibilidade de uma reestruturação genética da fruta para permitir a existência do tal sorvete de laranja.
O jeito dela de olhar para o mundo
Esse era o jeito da Marina. Ela não aceitava facilmente que algo fosse impossível, talvez não fosse viável o sorvete, mas o picolé, era só congelar o suco!
Depois de perceber que o tema realmente não avançaria, acabou mudando o foco do trabalho. Resolveu pesquisar formas de reciclar e utilizar EPS, o poliestireno expandido, o isopor, na fabricação de tinta.
Fez uma excelente apresentação. Lembro do orgulho que senti ao vê-la diante da classe e dos professores, segura, inteligente, desenvolta. Saí dali pensando: “Marina nasceu para isso.”
Hoje, quando lembro dessa história e de tantas outras, percebo o quanto ela era curiosa, inquieta e movida pela necessidade de encontrar soluções, até para problemas que nem eram dela.
E acho engraçado lembrar que ela nem gostava de laranja, ela gostava da cor, mas não da fruta. Ainda assim, ficava indignada com a inexistência de um sorvete.
Talvez porque Marina fosse assim: alguém que olhava para o mundo querendo entender o que não encaixava.
E penso muito no dia em que ela congelou o suco de laranja e descobriu, decepcionada, que ele realmente ficava amargo, intragável. Talvez ali tenha existido uma pequena lição silenciosa: nem tudo tem solução.
O que o luto e a laranja têm em comum
Sinto hoje que o luto guarda uma semelhança cruel com aquela experiência. O luto não tem solução; tem conformidade, adequação e saudade. É um amargo que vai além do paladar; ele se infiltra nos poros, na rotina e nas lembranças.
E se eu precisasse definir a sensação do luto, não a sua ocorrência, mas o seu sabor, diria que ele é um imenso e indigesto picolé de laranja, uma versão fria e amarga de algo que um dia foi doce, vibrante e cheio de vida.



