
O luto e a jornada do herói
10/11/2025Nove anos: a travessia do luto
“Agora é a fase da dor da ausência, saber que nunca mais ouviremos a voz dela, não teremos mais sua presença, sua doçura, o seu sorriso, esta sim é a pior dor.”
Escrito no dia do enterro de Marina, há nove anos.
Escrevi uma pequena mensagem de agradecimento no meu perfil do Facebook no dia do enterro da Marina, e nove anos depois, escrevo como estou.
A ausência e a saudade são sentidos todos os dias, mas desde o dia 22/02, data de sua internação, as lembranças de tudo que passamos naquela época iam e vinham, mas em 13/03 a tristeza veio com força.
Por mais que eu quisesse me distrair com o trabalho e outros pensamentos, eu voltava para aquele dia nove anos atrás, lembrando detalhes de nossa última conversa cheia de esperança. Nó na garganta, aperto no peito, lágrimas.
Ontem, tive um sonho com ela, ela criança, devia ter uns nove anos. Um sonho confuso, em que ela sumia e aparecia e eu ficava desesperada à sua procura. Quando finalmente a encontrei, ela já era adulta.
Acordei mais saudosa ainda. Contei o sonho para o Joseval e o ponto que me chamou a atenção era o nove: nove anos, ela com nove anos, nós nove anos depois.
Como era o dia que marcava mais um ano, havia planejado escrever algo sobre essa travessia, deserto, fazer uma homenagem a ela e ao Grupo Nomoblidis que completava oito anos, mas não saiu nada. E como era o dia do PI, então veio a lembrança da piadinha que ela fazia com o Pi e fiz um pequeno texto.
Meu dia se resumiu a tentar responder algumas pessoas que me mandaram mensagens e a suportar o silêncio de quem ela amava, mas que já não toca mais no nome dela, como se ela não tivesse existido.
Esse silêncio aumentava a tristeza.
Tive uma noite mal dormida e hoje pela manhã, me veio o número nove e a ligação como a Divina Comédia, livro que li, com Joseval e um casal de amigos, em um grupo que criamos, chamado MBA.
Fiz uma analogia entre a travessia por esse luto, de como entramos no limbo, passamos pelo inferno, pelo purgatório, almejando o paraíso, tudo no sentido humano, não místico nem religioso.
Os Nove Círculos do Meu Luto
O Limbo da saudade, da ausência. E então o inferno, com seus círculos que resolvi nomear: o choque, o porquê, a culpa, a saudade, a raiva, o medo, a inveja, a desesperança e a solidão.
Cada um dos nove círculos do meu luto foi vivido e revivido nesses nove anos, atravessado não como observadora, mas imersa em tudo, em cada sentimento intenso e duradouro.
Também tive meus guias, iluminando com suas lanternas o meu caminho: pessoas que nunca imaginei conhecer, que me ajudaram a atravessar, os amigos de caminhada que também percorrem seus próprios círculos.
Também tive os julgadores, os que acreditam que cada um está no lugar que deveria estar. Eles apareceram com conselhos não solicitados, teorias sobre o que poderia ter sido feito, observações sobre os pecados, como se o sofrimento fosse prova de algum erro meu.
O purgatório de Dante é uma montanha, e eu também sinto que subi, com cansaço, pois o luto cansa. E não é somente dor: é também memória de momentos bons que vivemos. Há gratidão, há acalento no que foi vivido, e não apenas no que foi perdido.
E hoje, sinto que o tão almejado Paraíso não é o fim da dor nem o reencontro, mas o aprendizado de viver com a ausência. Não creio que cheguei por completo, e talvez nunca chegue de vez; nove anos é um número simbólico, e o paraíso parece ser menos um destino do que um estado que se visita: aquele lugar onde a dor e o amor estão lado a lado, onde a saudade não impede o sorriso, onde a alegria chega de uma forma diferente da que eu conhecia antes.
Marina não chegou a ler a Divina Comédia. Deixou o livro lacrado, junto com outros, que sem querer me ensinam que toda travessia dá em algum lugar. Que o Inferno não é morada, é passagem.
E que do outro lado, mesmo que a luz seja diferente da que imaginávamos, ainda há luz.



